Autora:
Nídia Maria de Leon Nóbrega
Na quietude se seu mundo, delimitado pelo rancho de tábuas comidas, coberto de zinco e do outro lado pelo muro sujo e intimidante, fica pensando na sua primavera atual representada por uma erva daninha em flores. Uma ironia da vida que um dia teve glamour, poder e jardins bem cuidados. Ah... Como amava seus jardins recheados de flores e cores que na primavera e, até mesmo em outras estações, floravam e inspiravam alegria, prazer, satisfação e plenitude. Nem lamenta as outras perdas que foram acontecendo aos poucos, como uma doença que come a vida sem se fazer notar. Nem as ausências dos seus amores levados por ventos e tempestades emocionais ocupam espaço na sua mente perdida em lacunas senis ou esquecimentos provocados. Mas as flores fazem falta, assim como o zumbido das abelhas, o cantar dos pássaros e o barulho das cigarras nos pés das árvores do quintal que um dia foi parte de seu mundo. E fica lá enlevada com sua erva florida que recebe a água da bacia do banho improvisado no quartinho da patente com cheiro de sabonete barato deixado pela mulher de uma das igrejas que a visitam esperando sua conversão quando ela apenas que ouvir alguém falando com ela.
Mas essa flor tão delicadinha, frágil quase, tímida pela insignificância dentro dos tratados da botânica, tem sido o motivo de levantar, abrir a porta e olhar o dia.
Tem medo de tocá-la com seus dedos carcomidos pela idade, artrose e abandono. Mas ela é seu universo de encantamento, consolo e resignação. Uma flor – ao menos uma pequena flor, lhe oportuniza sentimentos menos piores nessa primavera que alivia sua vida estéril de tudo.

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