terça-feira, 31 de outubro de 2017

PRIMAVERA (Nídia Maria de Leon Nobrega)


















Autora: 

Nídia Maria de Leon Nóbrega

Sentada naquela pilha de tijolos quebrados, encurvada, olha com atenção aquele pé de inço que tem as pontas dos pequenos galhos cheias de pequenas flores vermelhas.

Na quietude se seu mundo, delimitado pelo rancho de tábuas comidas, coberto de zinco e do outro lado pelo muro sujo e intimidante, fica pensando na sua primavera atual representada por uma erva daninha em flores. Uma ironia da vida que um dia teve glamour, poder e jardins bem cuidados. Ah... Como amava seus jardins recheados de flores e cores que na primavera e, até mesmo em outras estações, floravam e inspiravam alegria, prazer, satisfação e plenitude. Nem lamenta as outras perdas que foram acontecendo aos poucos, como uma doença que come a vida sem se fazer notar. Nem as ausências dos seus amores levados por ventos e tempestades emocionais ocupam espaço na sua mente perdida em lacunas senis ou esquecimentos provocados. Mas as flores fazem falta, assim como o zumbido das abelhas, o cantar dos pássaros e o barulho das cigarras nos pés das árvores do quintal que um dia foi parte de seu mundo. E fica lá enlevada com sua erva florida que recebe a água da bacia do banho improvisado no quartinho da patente com cheiro de sabonete barato deixado pela mulher de uma das igrejas que a visitam esperando sua conversão quando ela apenas que ouvir alguém falando com ela.

Mas essa flor tão delicadinha, frágil quase, tímida pela insignificância dentro dos tratados da botânica, tem sido o motivo de levantar, abrir a porta e olhar o dia.
Tem medo de tocá-la com seus dedos carcomidos pela idade, artrose e abandono. Mas ela é seu universo de encantamento, consolo e resignação. Uma flor – ao menos uma pequena flor, lhe oportuniza sentimentos menos piores nessa primavera que alivia sua vida estéril de tudo.





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