terça-feira, 14 de novembro de 2017

MARROCOS (Querubina Ribas)

MARROCOS


Querubina Ribas, a autora, faz parte do 
Coletivo Náufragos Literários


O caminho, longo e estreito, parecia não ter fim. Desaparecia numa curva. Surgia em outra. De um lado, um rio cristalino, abastecido com as águas do desgelo da cordilheira do Átlas. Do outro lado, altas paredes marrons. Muito altas. Entre elas dava para vislumbrar uma nesga do céu azul. O silêncio era total. Na mitologia da Grécia antiga, Hércules andou por estas paragens. Procurou o auxílio do desterrado Átlas, para realizar o último dos seus doze trabalhos. Numa pequena tenda, um bérbere vendia artesanato em tecido, uma tradição milenar desse povo bonito e sábio. Autodenominam-se “imazighen” que significa, homens livres. 

Fixei meus olhos, nos negros olhos do bérbere.
Esbocei um tímido sorriso. Amo as pessoas diferentes. As culturas diferentes. E, ao visitar um país, sempre fico com receio de transgredir alguma regra da cultura do país que visito. Detive-me por alguns segundos, sem saber se me aproximava. Caminhei lentamente, para outro lado. Parei, por um tempo impreciso, para sentir a força daquele lugar tão tranquilo e que exerceu um forte poder sobre mim. A sensação de isolamento, me deixou com uma vontade enorme de nunca mais sair daquele lugar. Aquela natureza, exótica, perfeita, deslumbrante fez com que eu me sentisse em casa, segura e harmoniosamente ligada àquela paisagem.

Não sei o porquê, associei aquele caminho, aquele rio tortuoso e ao mesmo tempo calmo e tranquilo, com a vida do ser humano. De um lado, altas, escuras e difíceis escarpas. Do outro, um manso e cristalino rio. A vida é assim. Paredes altas que dificultam nossa subida, em determinadas circunstâncias. Barreiras difíceis de superar. E, momentos que se assemelham a um rio manso, de águas cristalinas que nos levam suavemente por terras desconhecidas. Que nos impulsionam. Que nos fazem sair dos limites que nos amarram. Nos detêm. E, ao longe, naquele serpenteante caminho, havia um oásis.



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