Autor: Hélio Cervelin
Querida mãe,
Passamos por maus bocados juntos, até a sua partida, aos 59 anos, não é mesmo?
Papai partiu para o céu em 16 de outubro de 1963, aos meus 12 anos, e nossa família ficou desestabilizada. As dificuldades financeiras começaram a se agravar e foi ficando difícil permanecermos com o sítio em que morávamos e tirávamos nosso sustento, no município de Ouro (SC), onde tínhamos vários tipos de frutas, cereais e animais domésticos.
Com 13 anos tive que sair de casa para cursar o Segundo Grau (curso ginasial, na época) passando a residir na casa de estranhos, onde tive muita insegurança e tristeza, e chorei muitas vezes de saudade de você e dos irmãos.
Mãe querida, sempre te amei e te amarei, estejas onde estiveres. Nunca amei ninguém com tanta intensidade quanto te amei e ainda te amo!
Fiquei triste no dia da sua passagem para o Plano Espiritual, em 1977, quando viajei ao seu encontro nos confins do Paraná, na fronteira com a Argentina. Eu te encontrei em coma e não pude mais dialogar com você; uma das suas grandes virtudes era o diálogo, a compreensão. Você desencarnou nos meus braços, e partiu. Quisera ter falado com você, pedir o teu perdão pelas vezes que eu tenha errado e te magoado; por não te ter visitado mais vezes, embora na época fosse bem mais difícil transitar do litoral catarinense até a fronteira com a Argentina.
Mamãe, você é o meu maior exemplo de bondade, sacrifício e fé em Deus. Uma mulher sofredora, que trabalhou noite e dia e nunca reclamou. Criou e educou onze filhos, sendo que dois deles (Nair e Ildo), aos dois anos, tiveram suas vidas ceifadas pela difteria, uma terrível doença respiratória da década de 1950.
Você foi um exemplo de persistência, bondade e resignação, especialmente numa região gelada como aquela em que nascemos, onde, geralmente, nevava no inverno, devido à altitude da Serra Catarinense. Uma época em que, pelas condições precárias da economia, andávamos descalços e mal agasalhados. E você levantava de madrugada para ordenhar as vacas e tirar o leite para beber e fazer queijo e coalhada, alimentos essenciais na região de colonização italiana.
Muitos méritos seus, os descreverei, futuramente, com mais tempo. Se, atualmente, se fala em “jornada tripla” para as mulheres, na sua época a jornada era mais que “quíntupla”, pois você era mãe, dona de casa, esposa, costureira, agricultora, tecelã, quituteira e muito mais.
Mãe querida, daí, do plano espiritual onde você se encontra, ou durante as visitas que nos faz com a permissão do Pai Celestial, peço que interceda na questão das eventuais desavenças entre nós, seus filhos, no sentido de obter o perdão entre todos.
Te vejo no Céu, através da Internet, jovem, linda, cabelos compridos, e ágil como sempre. E espero sua visita como espírito de luz, amanhã, às 03h17min, com muito amor.
Florianópolis, 06 de julho de 2026.
Seu filho, que muito te ama.