sábado, 4 de novembro de 2017

O MEIO DIGITAL E O ESPAÇO VAZIO (Nídia Maria de Leon Nobrega)





Autora: 
Nídia Maria de Leon Nobrega












Esse texto não é uma declaração de solidão ou infelicidade ou tristeza.
Mas a constatação de que os meios digitais, esses que nos mobilizam o dia todo – celular, WhatsApp, tablete, computador, vídeo conferências e todos os eteceteras facilitam a vida, mapeiam nossas atividades, reduzem distâncias, agilizam rotinas e nos colocam na roda da vida, mas não me bastam.
E esse “mas” e sempre haverá um “mas”, essa “coisarada”  toda não nos aproxima o bastante e o necessário. Não tem o calor do abraço, o cheiro da pessoa, a maciez do cabelo, o encaixar do corpo naquela comunhão insubstituível de quem sente afeto.
Sou uma sinérgica incurável. Gosto de falar tocando no braço, na mão, olhando no olho arrumando a gola da camisa, ajeitando o cabelo, me encostando, abraçando. Sei que isso, nos dias de hoje chega a ser meio que invasão de espaço. Tem gente que tipifica como assédio ou psicopatologia. Coisas que a tecnologia criou para a gente se contentar em olhar de longe e estipular graus de intimidade. O que é totalmente desnecessário. Porque se não há afeto ou outro sentimento o limite se impõe sozinho.
Ai a gente senta na frente do computador e fica a mandar dizer que ama, que tem saudade, que tem tesão ou apenas vontade de estar próximo. Mas isso não basta, não alimenta não tem consistência afetiva. A emoção fica na nuvem.
E, mesmo que as geografias da vida, as estradas e os acessos possam ser facilitadas pelas mídias, é muito bom ouvir um portão que abre, uma chave que gira na fechadura, uma campainha que toca, um chamado na janela da sacada, um “oi onde você está? ” “Tem comida nessa casa?”, “ tem café?”... E depois disso um abraço quentinho, mesmo que molhado de suor, meio azedo e cansado da rua, mas ali, ao nosso alcance.
Mesmo que o progresso seja benéfico,  que todas as mídias sejam ferramentas que aproximam e ignoram oceanos, terras longínquas, fusos horários e paisagens que nunca veremos e transformem tudo no agora, nada como aquele espacinho entre dois corações.
Até brigar, trocar palavras duras perdeu a sua graça. Parece que nunca serão bastante via e-mail. Como fazer as pazes se não há lugar para o abraço da reconciliação?
Não sou uma saudosista que não aceita o mundo atual. Mas meu vício em gente é incurável. Preciso dessa coisa de carinho, de troca física, de empatia presencial.
Deixo os créditos, carregar bateria, encontrar espaço, economizar memória e essas bobagens para quem ainda não aprendeu o que é sentir.

Mas, por conta do que não posso mudar fico aqui nos blogs e nas comunidades de gente que, como eu, precisar estar perto. Nem que seja por conta de megas e outras emes quaisquer.

LEMBRETES DE UM DICIONÁRIO DE AFETOS PERDIDOS (Nídia Maria de Leon Nobrega)



Autora: 
Nídia Maria de Leon Nobrega












As lágrimas escorrem   enquanto fico aqui lembrando o que fomos.  Gostaria de me desapegar de todas essas memórias, de esquecer essa relação quase amarga que foi nosso roteiro. Queria chorar por um momento ameno, indolor, sem resquícios de nada ruim.

Mas, esse desejo de varrer de minha mente todas essas paisagens é um sonho ainda a ser realizado. Um dia, quando passar a tempestade, quando tudo for apenas um capítulo à parte, poderei no meu ócio afetivo ver o lado bom de tudo o que fomos.  Então, irei te incluir no meu dicionário de verbetes afetivos como significado da palavra aprendizado do verbo amar. Que também pode ser sinônimo de recomeçar ou de esperança de “bisolhar” a vida com olhares mais doces até mesmo em lembranças amargas.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

PRIMAVERA, DE NOVO! (Hélio Cervelin)













Autor: Hélio Cervelin


Já estava cansado daquela paisagem sombria do inverno onde parece predominar o triste silêncio do recolhimento, da compunção, do arrependimento.
A mata despojada, as folhas caídas rolando pelo chão ao sabor dos ventos,  os galhos das árvores expostos como que de braços abertos pedindo socorro, abrigo e  proteção traduzem uma imagem que até certo ponto nos induz à desolação. Essa ausência de cores nos faz pensar no silêncio, na prostração.  Tudo ao redor parece ter-se recolhido para uma reflexão profunda, despojada de encantos e ostentação, humildemente consternada nessa reclusão imposta pela natureza.
Mas, setembro chegou!
Vejo, enfim, surgir a primavera, com sua promessa de dias amenos, melodiosos e multimulticoloridos. Não são apenas as flores, como as orquídeas, violetas, crisântemos, jasmins, rosas e tantas outras de inumeráveis espécies que se apresentam em suas vívidas e variadas cores. Também os demais seres da Terra ressurgem, parecendo renascer, alegremente, saídos não se sabe de onde.
Os pássaros e os tantos outros animaizinhos voadores da floresta parecem comemorar com seus voos, cânticos, saltos e zumbidos o alvorecer da nova estação. O perfume está no ar. Rios, cascatas e cachoeiras comemoram alegremente, com a melodiosa harmonia de suas águas que correm. A vida parece ter começado agora o seu despertar para a eternidade. É a estação das flores, perfumes e sorrisos.
Na verdade, trata-se mesmo de um recomeço, como em tudo na natureza, incluindo nossas vidas, que são feitas de eternos recomeços.
É impossível negar: a primavera é a mais encantadora das estações.

O APRENDIZADO (Auri Tamino Silva)










Autor: 
AURI TAMINO SILVA





A função da escola é ensinar.
No contexto atual, o conhecimento que adquirimos é direcionado à construção da produção industrial para gerar riqueza material. Nossas escolas nos ensinam sem se preocupar com a formação política, ética e o relacionamento interpessoal.
Esse duplo olhar nos traz sentimento de tristeza ao ver as coisas sem poder ter uma ação no sentido de modificá-las. Somos fracos na briga com a mídia, que em poucos minutos, destrói todo um pensar, que tentamos incrustar na cabeça das pessoas. Nosso mundo não valoriza as memórias de um passado que foi promissor.
Porém, existe o elixir da esperança e sabemos que ele nos leva a sonhar, e sonhar não é proibido. Se sonhar é permitido, meu desejo é lutar até o final da minha vida, proporcionando um bem estar para a minha comunidade.
Nossa vida é uma passagem pela Terra, portanto, façamos algo de bom para melhorar os ambientes, natural e espiritual, do nosso planeta, em agradecimento a essa incrível energia que nos criou.

Florianópolis, Dia de Finados, de 2017.

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

SOBREVIVENTES DO NAUFRÁGIO (Áurea Ávila Wolff)

Autora: ÁUREA ÁVILA WOLFF 


Era uma vez uma escola onde os alunos aprendiam a usar barcos de papel para realizar suas viagens literárias. Cada aluno trazia na bagagem pedaços de esperança, pedras, lápis, folhas secas, galhos de árvores, flores, recolhidos na caminhada da vida. A professora orientava seus alunos a amarrar com fios dourados e coloridos as velas dos barcos. A classe toda embalada pelo som de belas músicas balançava navegando pelo mar da fantasia e das lembranças que cada um trazia guardada em seus segredos de navegador. Ventos anunciaram possíveis tempestades deixando os tripulantes atentos, mas esperançosos de que os ventos mudassem de rumo. Mas, ela surge com toda a força da razão, atingindo os barcos, derrubando as velas. Todos tentam se proteger da ventania, agarrar-se nas beiradas, mas a estrutura das embarcações é frágil, se rompe e de repente estão todos dentro do oceano que envolve uns com as ondas da surpresa, outros da angústia e do desencanto.  Não tem mais barcos, não existem velas. Cada um nada desesperadamente para chegar em algum lugar.

Silêncio - medo - expectativa - espera - nadando no mar revolto da tempestade. Uma fogueira brilhando na praia atrai os sobreviventes. E os náufragos vão chegando, com as roupas molhadas, os sonhos embaralhados, mas vivos. E olhando para os lados viram que não estavam sozinhos. Muitos tinham chegado, atraídos pela luminosidade das ideias, e se aqueciam com o calor da fogueira da esperança que dizia a todos que podiam continuar a viagem e reconstruir barcos diferentes, mas que permitissem aos navegadores chegar ao seu destino de criadores literários.

A tempestade se acalma. A Acojar é o rumo. A Acojar acolhe. Reunidos, os sobreviventes se entusiasmam com as manhãs de sol e decidem esquecer a tempestade, valorizar e fortalecer os fios dourados que envolveram os alunos desta escola e usar todo o seu tempo para construir novas embarcações, baseadas no trabalho, no companheirismo e com muito amor ajudando uns aos outros.

HOMENAGEM AO ZEZINHO (Áurea Ávila Wolff)

Autora: ÁUREA ÁVILA WOLFF 

Minha família já foi toda para o lado de lá, além da vida na terra, para um lugar que existe nos sonhos e na fé de cada um. Neste lugar, acredito,  estão as pessoas que fizeram parte da minha caminhada, pessoas muito importantes e cada uma com um significado histórico e amoroso diferente. Meus avós, tios e tias, primos e primas, meus pais, meus irmãos e minha irmã, cunhados e cunhadas, meus sogros, sobrinho e meu marido.

Como sou temporão, estou no final da fila, esperando o toque de retirada. A perda mais dolorosa e mais recente foi do meu marido. Mas, sobre ele ainda é muito doloroso falar. Quero falar sobre uma pessoa que viveu  no meu coração, com um rosto que eu pintei na galeria de fotos reais ou fictícios, com  uma personalidade  que formei na imaginação, colhida nas descrições familiares e na  memória histórica do tempo e do espaço. Meu irmão. Eu tinha 2 anos quando ele saiu de casa com 17 anos e foi para longe; e eu  tinha 5  anos  quando  a meningite ceifou sua vida. Marcante época  escura da casa dos meus pais. Silêncio, poucas falas, lágrimas, roupas pretas, vizinhos solidários. A dor dos meus pais pela dolorosa perda me deixava sozinha e solitária. Inconsciente tristeza ao se instalar na percepção infantil me proibia as manifestações  alegres e as travessuras, que ficavam fechando portas e janelas para o mundo colorido e bonito. E as  falas cheias de encanto da minha mãe, num desabafo amoroso e triste foram  formando no meu coração uma doce lembrança e terna saudade do Zezinho.  
          
Quando escrevia suas cartas, dizia minha mãe, sempre pedia para eu não dar palmadas na Aurinha quando ela fugia para a casa do vovô. "Dá beijinhos no lugar das palmadas". Mamãe lembrava  o carinho que ele tinha por mim; e que me fazia dormir contando histórias, ninando na cadeira de balanço. E sorria,  entre lágrimas, dizendo que num desses embalos a cadeira virou comigo e com ele. 

Ele era muito bonito, dizia ela, tinha cabelos pretos e um gênio forte, alterado, e entrando em brigas  para defender alguém. Inteligente e amoroso,  alegre, iluminava a casa com seus encantos e brincadeiras. Era forte e alto, trabalhador  e muito responsável nos estudos. Era  líder dos irmãos e dos jovens na escola e da vizinhança. Criei para mim um irmão que, embora ausente, me amava muito; e com esta visão terna guardo-o até hoje na minha vida.  

Quando me sentia sozinha e pensava que ninguém me amava, a lembrança do seu amor e carinho me enternecia e me dava conforto para enfrentar as dificuldades do caminho.  E eu pensava: "O Zezinho me ama. O Zezinho me ama". E eu me sentia importante com esse seu amor.

Hoje minha homenagem é para este irmão.
José, Zezinho, meu querido, agradeço o carinho que tiveste para aquela tua irmãzinha  tão pequena, porque serviu muito para ela que  guardou no coração o calor dos teus afagos, que experimentou nos momentos difíceis os cuidados  de um anjo da guarda, e nas recordações de infância um companheiro amigo e forte a me proteger e me amar.  
   
Tua partida precoce deste mundo deixou para mim a saudade e a alegria de ter recedido teu amor, mesmo que somente através das lembranças da tua curta e tão brilhante  história.  Hoje estou sozinha aqui na terra; nossa família de origem já não está mais aqui. Sinto saudade de todos com quem convivi durante muitos anos e dos quais recebi uma riqueza de valores e de força que me sustentam até agora. A ti, irmão amado, ofereço a minha ternura e carinho e a homenagem de quem te respeita e ama.  E a certeza de que em Deus está o teu lugar.

Porque Deus é  amor !

VERÃO (Laércio de Melo Duarte)







Autor: 
Laércio de Melo Duarte






V E R Ã O

Vamos à praia como um bando de crianças, 
pulmões sadios capturando o ar limpo e fresco 
da manhã, distinguindo cheiros e identificando 
cada procedência,
de acordo com as mesmas regras que formam 
dunas, restingas e mangues desde 
tempos imemoriais.



Subiremos montanhas e descansaremos 

admirando a ilha verde ao longe, no ponto 

onde céu e mar já não se distinguem 
um do outro.

Quando vier o por do sol, nossos olhares acompanharão a trajetória do astro rei 
descendo para trás da serra, 
pintando de vermelho o horizonte 
que vai aos poucos transformando o céu 
em novo azul profundo, até mesclar-se
de vez 
com a noite que acabou de chegar.