quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

SALTA, LA LINDA (Laércio de Melo Duarte)



A arquitetura colonial de Salta 
parece ter saído dos contos fantásticos de Garcia Marques 

Nós que estivemos sob grande influência imigratória  européia posterior à colonização ibérica, não temos ideia do que seja uma nação de raça única. Sabe aquela piada onde um interlocutor diz ao outro "É tudo a mesma coisa" e recebe como resposta: "Mesma coisa é um caminhão cheio de japoneses".   É isso mesmo.  Na portaria do pequeno hotel em Cafayate, na escarpa inicial dos Andes Saltenhos, estava um francês tentando se comunicar, em inglês, com a indiazinha da recepção. Depois de acompanhar a tentativa de conversa, e bem metido que sou, tomei a tarefa de indagar ao francês se ele tinha certeza de ter pago os valores adiantados que alegava ter pago, e se quem recebeu era mesmo a moça ali defronte. Ele garantia que sim, e parecia sincero nas suas afirmações. Pergunta daqui, investiga dali, a recepcionista acaba descobrindo que foi uma camareira que recebeu o dinheiro e "esqueceu" de anotar na ficha do rapaz. Como poderia o pobre europeu saber que uma não era a outra, já que pareciam idênticas? Os mesmos olhos negros, o mesmo pelo finíssimo a contornar as suaves curvas da nuca,  coxas e braços, a mesma pele macia, os mesmos cabelos longos e pretos, os mesmos lábios carnudos .... ai,ai,ai ... Sim, além de parecerem-se iguais, são extremamente sensuais. Em geral as jovens são bunitinhas, baixinhas, peitudinhas e bundudinhas, mas também circulam aquelas que parecem modelos de revista, verdadeiras jóias eróticas, digo, exóticas, com seus 1,80 m de altura e corpos esculturais. 

Noventa e nove por cento da populacão de Salta é descendente de índios. Vinte e cinco por cento ainda vivem em tribos, falando exclusivamente a língua nativa Aymará, uma variação do inca Quechua, que comandavam o espetáculo na altura do ano 1400 desde os contrafortes andinos da Colômbia até a Patagônia.


Em dias claros no inverno, se  contempla a cordilheira
completamente nevada.


Neste e em outros aspectos, Salta é deliciosamente latino-americana. O caso do dinheiro que o francês adiantou e não obteve recibo é coisa rotineira, pois o nível de formalização da atividade econômica é muito precário. Você vai a um restaurante hoje, paga um preço. Amanhã pagará preço maior ou menor pelo mesmo serviço, a depender do humor do negociante ou do garçom.  O caso é que ele lhe apresenta a conta fechada "São 65 pesos". Eu respondo "Não é, não senhor." e explico que o filé com fritas sai por 28, o vinho é 15 e a salada 8, portanto, o total dá 51 e não é possível que estejam cobrando 30% de comissão. Então, na maior cara de pau, ele se faz de vítima: "Haaa, dá 45 pesos, tá bom!". Replico que "Não dou, não! Aqui está o correto, 55 pesos" e ambos fazemos as pazes.  


A argila avermelhada do solo
proporciona visões de rara beleza.

O Trem das Nuvens sai da estação de Salta
e corre no altiplano,
chegando a 5 mil metros acima do nível do mar.



Assim como em todos os demais países e estados da América Latina, é realmente tudo a mesma coisa, pois na Bolivia, Peru, Paraguai, Tucumán, Catamarca, Jujui e Salta, assim como Bahia, Amazonas, Pará, Maranhão e tantas outras sociedades,  quem manda é a elite branca e européia. Isso está impregnado há séculos na alma desses povos, tanto que eles já automatizaram o comportamento para a obediência simples e direta no dia a dia. Cena exemplar: o ônibus de Cafayate chega em Salta e forma-se um aglomerado em torno do maleiro (eles nunca organizam fila para nada, é uma zona total, parece a Bahia). O maleiro inicia a retirada das malas e as vai distribuindo conforme se apresente o dono. Achei razoável a ideia, por que otimiza o serviço dele. Mas, um cidadão de olhos e pele clara atravessa todo o aglomerado, apresenta seu tícket ao maleiro e este procura especificamente a mala do senhor branco. Não se ouve um pio na “fila”, além da minha revolta em espanhol macarrônico, que ninguém apoiou, nem com um simples olhar. Meu último recurso foi chamar o transgressor de “ignorante”, mas ele também não me dá a mínima. Pelo jeito, o ignorante sou eu.    
E na minha vez o maleiro ainda me pede uma gorjeta! 


Nos vales saltenhos se produz a melhor uva Torrontés do mundo. Ela foi desenvolvida em Bordeaux (França), mas foi em Cafayate que se tornou perfeita para a feitura dos
melhores vinhos brancos frutados, semelhante aos verdes do Minho (Portugal). Levemente gaseificados e pouco alcoólicos, pode-se bebê-los gelados, em várias ocasiões e maneiras. Visitar as várias cantinas e bodegas espalhadas pelo deserto
é uma aventura inesquecível. Quem foi um dia, vai sonhar um dia voltar.   Tin Tin !!! 


Salta foi fundada pelos exploradores de minas em Potosi (Bolívia), na altura do ano 1580. Eles precisavam de um ponto de paragem na viagem para o Rio de la Plata e sua saída para o oceano Atlântico. Houve grande influência andaluza moura de Granada e principalmente catalã, proveniente de Barcelona.  



Salta desempenhou papel fundamental na guerra de independência contra a Espanha. O saltenho general Guemes foi, junto com o correntino San Martin e o tucumano Belgrano, os grandes comandantes das tropas que se rebelaram contra o domínio colonial espanhol. A luta durou muitos anos e, antes de expulsar os espanhóis definitivamente para os lados da Bolívia em 1816, seis anos após a declaração de independência proclamada em Buenos Aires,  Guemes foi ferido em combate. Cavalgou ainda três dias e quando pressentiu a morte, ordenou que a tropa acampasse e preparou seu último churrasco gordo de gaúcho, justo na quebrada onde hoje está a Avenida Balcarce, local de diversão e arte, onde ficam as melhores "peñas" de Salta, verdadeiros galpões crioulos de onde sai o som "de las zambas", assim mesmo, no feminino, o ritmo ancestral da província. 







quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

NOSSO DEUS INTERIOR (Hélio Cervelin)


Autor: Hélio Cervelin

Algumas surpresas se nos apresentam ao analisarmos atentamente nossas vidas, entregando-nos ao exercício do recolhimento e da meditação.
Fatos considerados corriqueiros ou circunstanciais podem nos revelar a existência de uma "engenharia" do Divino para reorientar o rumo dos acontecimentos, os quais parecem nos afetar de forma cadenciada para nos proporcionar determinados benefícios.
Normalmente nos queixamos pelas coisas que nos acontecem, especialmente as que consideramos negativas ou prejudiciais, tais como os acidentes, as contrariedades, os revezes amorosos ou profissionais. Mas uma reflexão um pouco mais aprofundada nos indicará que tudo está determinado a seguir seu curso de forma a atingirmos um objetivo pré-determinado, e que, ao final, acabará nos favorecendo.
Segundo algumas filosofias baseadas na Astrologia, já ao nascermos, o fazemos no lugar adequado para que ocorra um encadeamento dos fatos, oriundos ou influenciados pelo nosso signo, forjando-nos certa personalidade. Segundo esse raciocínio, tudo é estabelecido para que passemos pelas situações de aprendizado consideradas imprescindíveis ao nosso crescimento físico, moral e mental, na busca de um objetivo específico pré-estabelecido no Plano Cósmico ou Espiritual.
Alguns eventos que nos fazem refletir e questionar são os acidentes, os quais acabam nos retirando de determinado lugar ou afastando-nos de uma dada situação, tudo parecendo ter sido feito para nos preservar. Um exemplo típico disso é quando a pessoa precisa viajar e tenta por todos os meios, fazendo às vezes o "impossível" para tomar determinado voo, sem conseguir embarcar. Pouco tempo depois fica sabendo que a aeronave caiu, ceifando a vida de todos os seus ocupantes.
O que seria isso? A mão divina nos afastando do perigo iminente?
Alguns acidentes nos remetem a hospitais ou clínicas de regeneração fisioterapêutica e podem nos abrir os olhos para o estado - às vezes lastimável - de abandono do nosso corpo, que, relegado a um segundo plano, vai se deteriorando aos poucos por falta de exercícios físicos adequados.
Nos aspectos corriqueiros de nossas vidas, um acidente com o nosso automóvel pode representar um alerta para a necessidade de trocarmos o veículo por outro mais novo, ou mesmo dispensar o mecânico que cuida dele, substituindo-o por outro, mais capacitado, geralmente com uma razoável economia de recursos e um acréscimo no componente segurança.
Um acidente doméstico pode nos colocar na imobilidade de uma cama, onde será possível fazer uma grande reflexão sobre os rumos que nossas vidas estão tomando, ao nos proporcionar leituras sadias e renovadoras - antes desprezadas - ao mesmo tempo em que poderemos passar a conhecer melhor a presteza e o carinho de nossos familiares, normalmente solícitos e dedicados a nos auxiliar na recuperação.
Outra vantagem pode ser o fato de passarmos a conhecer belas, atenciosas e competentes profissionais da fisioterapia. Ainda não se sabe por que, mas, via de regra, essas profissionais são lindas e atraentes garotas, perfeitos estimulantes à prática de uma saudável atividade física.
São muitos os mistérios que nos envolvem no percurso de nossas existências. O seu percalço de hoje pode ser a pavimentação de um caminho de prosperidade e sucesso, lá adiante.
Analisadas essas ponderações, revela-se inadiável que prestemos mais atenção aos acontecimentos e saibamos valorizar cada situação, pois todo obstáculo pode ser o rearranjo que corrige nosso rumo na direção da prosperidade e da realização de nosso Eu Interior, podendo colocar-nos no caminho da felicidade e da autorrealização.

FOLIA DE REIS (Delva Robles)

Autora: Delva Robles

O contato anual com a tradicional Folia de Reis fez parte de minha infância. Lembro-me de mamãe nos chacoalhar na cama para nos acordar dizendo: Levantem! Acordem! Santos Reis “tá" aí!.  
Tratava-se de homens humildes, moradores de sítios e fazendas vizinhas de onde morávamos, em Paranavaí, Noroeste do Paraná, que, em fins de dezembro e início de janeiro de cada ano, iniciavam uma peregrinação de visitas às casas da região.
O grupo, que se vestia com roupas coloridas e alegres, geralmente   era formado pelo mestre da folia e pelos foliões. Entre os foliões havia os que usavam máscaras, o palhaço, os dançarinos - que faziam acrobacias na frente dos músicos - e os músicos, que tocavam sanfonas, gaitas, violas, tambores... 
Eles chegavam cantando e permaneciam cantando até papai abrir a porta, e então eles apresentavam a bandeira. E sempre com muito respeito pediam permissão para entrar na nossa casa.
Em algum momento, não me lembro se na chegada ou na saída, papai nos colocava de pé em cima de uma mesa para segurarmos a bandeira, feita em cetim brilhante com figuras estampadas, enquanto eles cantavam e dançavam, em louvor ao dono da casa e aos santos. E ao finalizar a cantiga, tinha a saudação feita pelo "mestre da folia", e repetida pelo restante do grupo:
- Vivam os Santos Reis!
- Viva N. Sra. Aparecida!
- Viva Jesus Cristo!
- Viva o dono da casa!
Para servir aos foliões e todos que acompanhavam a folia, mamãe preparava uma bela mesa, recheada de pães caseiros, linguiças, chouriços, torresmos, queijos, carnes, rosquinhas de pinga, mantecal e um bule quente de café e outro de leite. Além disso, sempre havia quentão e anisete.
Em um determinado momento da visita papai fazia um donativo para o grupo. Geralmente, as doações eram animais para serem sacrificados na festa que seria realizada no dia 06 de janeiro na casa do "mestre da folia" ou de algum outro morador da colônia. Todos seriam convidados. Bastava chegar.  
Na saída, havia o canto de despedida e agradecimento  pelos donativos. O líder do grupo iniciava a cantiga de agradecimento e de despedida, sempre em versos, e de improviso, e os demais membros do grupo repetiam os versos.
Simbolicamente, hoje eu sei que é a representação da visita dos três reis magos (Baltazar, Melquior e Gaspar)  ao Menino Jesus quando ele nasceu.
Trata-se de uma comemoração religiosa pertencente à igreja católica.  Por isso nas letras há referência à hóstia consagrada e ao Menino Jesus etc.
É uma herança cultural que herdamos dos espanhóis, a qual devemos incentivar para não deixá-la cair no esquecimento.

Quando ouço as músicas de Reis, entro na janela do passado e, por alguns momentos, sou aquela garotinha que segurava a bandeira verde de cetim e olhava com curiosidade para toda aquela folia que me encantava... A Folia de Reis.






terça-feira, 5 de dezembro de 2017

FLORIANÓPOLIS, ou Canção Praieira #4. (Laércio de Melo Duarte)



Compilação de LAÉRCIO DE MELO DUARTE

Eu considero esta canção como o verdadeiro hino de Florianópolis, embora a marcha rancho de Zininho também seja magnífica, mas não tem o mesmo brilho sereno nem a mesma aura de encantamento.
CANÇÃO PRAIEIRA #4 foi escrita por dois legítimos representantes da cultura que já se fez um dia na hoje denominada Ilha da Magia.
  • Professor Osvaldo Ferreira de Melo (1929-2011), catedrático e doutor em Direito, poeta e compositor musical nas horas vagas. Publicou dois álbuns contendo canções com letra e música de sua autoria, harmonizadas para canto coral e canto solo. Integrou a Orquestra Sinfônica de SC, a Associação Coral de Florianópolis e o Conjunto Orquestral Matizes Barrocos. Foi membro da Academia Catarinense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina, da Academia Catarinense de Filosofia e membro do Instituto Histórico da Ilha Terceira, de Portugal. Foi pesquisador do Folclore Catarinense de Raízes Açorianas e recebeu a Comenda Infante Dom Henrique, outorgado pelo governo português, por seus estudos sobre música de origem Açoriana.
  • Professor Aníbal Nunes Pires (1915-1978), escritor, poeta, produtor de teatro e cinema, influenciou o pensar de várias gerações de intelectuais do Estado de SC. Humanista por excelência, fez do magistério um misto de profissão e vocação. Além disso, com sua experiência e cultura, ele agregou um grupo de intelectuais rebeldes e pouco disciplinados, o Grupo Sul, que trouxe novos padrões estéticos e literários para SC na década de 1940.
Ambos tinham ancestrais nas Ilhas dos Açores, mas amavam mesmo era a Ilha de Santa Catarina, descrevendo o espaço insular e os personagens ilhéus com singular criatividade e poesia.

A interpretação é de Neide Maria Rosa (1936-1994), considerada a melhor cantora que a cidade já teve. Mariarrosa, como era chamada, foi "amadrinhada" pela grande diva da música brasileira, Elizeth Cardoso, que a convenceu a ir com ela para o Rio de Janeiro (meados da década de 1960) e lá participar de vários shows, festivais, programas de rádio e televisão. Com a carreira em ascensão, no entanto, Mariarrosa decidiu repentinamente voltar a Florianópolis, onde tentou atuar como empresária, gerindo diversos negócios. Continuou cantando até seu falecimento em 1994.




segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

ATITUDES DE PAZ E HARMONIA (Hélio Cervelin)

Autor: Hélio Cervelin



"Se imaginais que, matando homens, evitareis que alguém vos repreenda a má vida, estais enganados; essa não é uma forma de libertação, nem é inteiramente eficaz, nem honrosa; esta outra, sim, é mais honrosa e mais fácil: em vez de tampar a boca dos outros, preparar-se para ser o melhor possível." (Palavras atribuídas a Sócrates por Platão, ao final do seu julgamento)

“A verdade está no caminho do meio”, disse Sócrateso filósofo grego.

No convívio com as pessoas do nosso relacionamento é que transparecem nossos eventuais defeitos ou desvios de conduta. 

Como proceder para nos comportarmos de modo a não ferir, não escandalizar, nem magoar ou cometer injustiças contra quem quer que seja? Está aí um desafio.

Que as agressões físicas ou verbais são atitudes violentas todos nós sabemos. A arrogância, a prepotência e o menosprezo também podem ser consideradas atitudes violentas, só que em menor grau. O que não se imagina é que a mesma violência é encontrada também nas atitudes pouco aparentes, de caráter psicológico, tais como a indiferença, a ironia, a frieza dos olhares, bem como as atitudes de desrespeito aos nossos direitos fundamentais, pois representam uma afronta à nossa dignidade.

Tudo o que foge aos padrões de comportamento aceitos pode ser considerado uma atitude violenta ou desarmônica. Até os nossos modos à mesa podem ser enquadrados como atos de violência, quando, por exemplo, não sabemos medir nossas atitudes, nossos modos - às vezes pouco polidos - de nos servirmos, especialmente quando nos esquecemos de que existem mais pessoas que irão compartilhar conosco os lugares à mesa, os alimentos e as bebidas disponíveis.

Somos violentos quando não sabemos ouvir os argumentos do outro, quando tentamos impor nosso ponto-de-vista a qualquer custo, quando nos consideramos os donos da razão. Não devemos nos esquecer de que cada dia que vivemos é mais um dia de aprendizado, uma oportunidade de aprimoramento. Temos obrigação de saber que a nossa opinião tão arraigada de hoje pode sofrer uma mudança completa amanhã, pois os conceitos estão sempre em franca evolução.

Somos violentos quando temos atitudes bruscas, quando gargalhamos em voz alta, quando exageramos em nossas manifestações, sejam de alegria, de revolta ou de euforia, especialmente em locais públicos, na presença de outras pessoas.

Somos violentos quando elegemos uma determinada pessoa para descarregarmos as nossas frustrações, usando-a como a cobaia que servirá para testarmos o sucesso ou insucesso de nossas anedotas, notadamente procurando defeitos físicos ou psicológicos nos outros e fazendo deles o motivo de nossas caçoadas.

Somos violentos quando abusamos da timidez ou da ignorância das pessoas para transformá-las em vítimas e contrapontos na demonstração de nossa “grande erudição”, humilhando-as publicamente.

Somos violentos quando nos utilizamos de nossas posses ou posição social para oprimir outras pessoas, seja pela arrogância da posição, seja em negociatas de ética duvidosa, para forçar uma acumulação maior de nossas posses ou poder.

Somos violentos quando procuramos apenas o nosso bem-estar e nos esquecemos por completo de nossos semelhantes que sofrem mundo afora, mesmo percebendo que uma pequena renúncia de nossa parte significaria um alívio substancial para o sofrimento de muitos.

Somos violentos quando nos associamos aos opressores para, voluntária ou involuntariamente, servirmos de instrumentos de maior opressão, adotando atitudes corruptas ou corruptoras ao longo de nossas vidas, contribuindo, desta forma, para que cresçam as legiões dos deserdados da sorte.

Somos violentos quando fechamos nossos olhos à destruição do nosso planeta, ignorando que a desestabilização do clima representará a capitulação de todas as espécies existentes sobre a terra, inclusive (e principalmente) a espécie humana.

Somos violentos quando não fazemos uma reflexão para compreender os motivos de uma rejeição da qual sejamos vítimas, especialmente pelo sexo oposto, pois normalmente nos consideramos irresistíveis e poderosos na arte da conquista, e reagimos com agressividade, e, em alguns casos, com brutalidade.

Somos violentos quando não sabemos aceitar o Princípio Criador de todas as coisas e agimos como Senhores do Mundo, assumindo a presunção de sermos seres infalíveis e imortais, ignorando que quando morrermos nossos bens materiais acumulados de nada nos servirão.

Somos violentos quando não temos atitudes compreensivas e tolerantes para com as pessoas que divergem de nossas idéias e não paramos para ouvi-las com maior atenção; quando não procuramos entender uma eventual rispidez de alguém em dificuldade, ou quando não concedemos o perdão para aqueles que nos pedem uma segunda chance.

Para vivermos melhor, adotemos os ensinamentos de São Francisco de Assis em sua Oração pela Paz, da qual trazemos um pequeno trecho, e, com certeza, o mundo será melhor.


“Senhor, fazei de mim um instrumento da vossa paz.
Onde há ódio, que eu leve o amor.
Onde há ofensa, que eu leve o perdão.
Onde há discórdia, que eu leve a união...”

sábado, 2 de dezembro de 2017

O BOM BRASILEIRO (Hélio Cervelin)

Autor: Hélio Cervelin

Descaso, preguiça ou negligência? Vejamos.
“Não to nem aí!”, “deixa pra lá!”; “tudo bem!” são exclamações de uso constante na vida do brasileiro. Todos nós sabemos (e fazemos parte disso) que para o “bom brasileiro” tanto faz “oito ou oitenta”.
É comum surpreendermos colegas de escritório usando uma tesoura para extrair grampos de papéis (quando não sacrificam as próprias unhas), apesar de disporem do instrumento adequado a dois palmos do seu nariz.
Frequentemente, vejo colegas dando verdadeiros sopapos com o carimbo  sobre a almofada, tudo isso só de preguiça de ir ao almoxarifado e apanhar uma almofada nova.
Já presenciei situações em que um colega que teve esgotada a bobina  de sua calculadora, se aproximou de outro e pediu-lhe uma emprestada. Diante da resposta negativa, observou surpreso e ironicamente:  - Mas não tens uma sobressalente?!
Usar a caneta para múltiplos fins também faz parte da “criatividade nacional”: bater sobre a mesa, mordê-la, coçar o ouvido, trocar datas de carimbos e máquinas (girando a chamada margarida), enfim, até para escrever ela é usada. Mas, a essa altura, ela já não funciona mais direito. Aí o brasileiro se irrita, chama-a de porcaria, joga-a no lixo e apanha outra, que servirá para os mesmos usos.
Tudo no brasileiro é precário, até sua ideologia. Dizem as más línguas que certa vez um deles foi abordado com a seguinte oferta: ganharia um automóvel zero quilômetro se trocasse sua coloração ideológica, renegando todas as suas convicções pelas quais lutou e combateu até hoje e assumindo exatamente o oposto. Afirma-se que ele aceitou imediatamente.
Poderíamos enumerar infinitos itens que demonstram essa peculiaridade verde-amarela. Quando vai ao banheiro é outro drama: para começar, se tiver que pagar ele dá um “jeitinho” de isentar-se; uma vez lá dentro, ele joga papel no chão, molha tudo o que pode, escreve “poemas”, xinga a mãe de todo mundo, enfim, é aquele “escarcéu”.
No momento em que eu escrevia este texto tive a impressão de que alguém me chamava. Levantei o olhar para tentar identificar a origem do chamado, quando ouvi a seguinte frase: “Me abrace”.
"Me abrace"?! Foi isso que vocês leram mesmo? Mas, era isso mesmo. E a colega continuou:

- Me abrace e pule comigo em cima deste perfurador, porque sozinha eu não consigo perfurar este calhamaço de papel.

ESTAÇÃO DO AMOR (Áurea Wolff)



Autora: Áurea Wolff

O primeiro assunto a ser abordado para produzir escrita criativa proposto para os membros do grupo Náufragos Literários foi a primavera.
Lindas falas revelaram os estilos poéticos e apaixonados de cada um, o encanto que se encontra na liberação da alma, E neste  espaço de tentativa do novo, da restauração  e do aconchegante, a primavera chegou com suas cores de esperança pela solidariedade e por um mundo mais humano e justo.
Eu que já vivi tantas primaveras, também vivi as outras estações do ano:  invernos com o frio do corpo e da alma;  invernos aquecidos com o calor dos irmãos; outonos onde a fartura era uma realidade; e outonos onde as sementes brotavam enfraquecidas; verões onde o calor do sol iluminava tudo; e verões onde as tempetades varriam as esperanças, derrubavam a fé e traziam a escuridão.
Em todas as estações encontrei o amor. Amor de mãe,  de pai, de irmãos de sangue,  irmãos do coração,  amor de marido, amor de filhos, de avós, de amigos, de estranhos,  de companheiros de trabalho, de alunos, de familiares. Quantos amores! Mesmo na dor  e no fundo do poço, encontrei o amor. 
Estou convencida de que  em todas as estações da vida existe uma essência comum, um fundo musical  da existência, uma gratidão pela vida, um sorriso de aventura, uma careta de loucura,  que,  mesmo quando não pensamos  nem acreditamos, queremos que exista, que esteja presente:  o amor.
Estamos  numa era nova, o nosso  tempo de aposentados, poetas, escritores, músicos, cantores, sonhadores.  As estações se juntaram, não tem mais uma data nem tempo de se alternarem.  Elas têm sua  essência, o ponto de partida, o foco central, a  meta, que,  mesmo com frio ou calor,  com dor ou desânimo quer  ser preservada.  Elas estão todas em todos os momentos.
Estamos no outono da vida,   quando  temos sonhos e eperanças. Também no inverno,  pois  temos o aquecimento que conseguimos no caminho.
Na primavera, porque as  lindas cores  do mundo  ficaram gravadas em nossa mente. No verão,  já que  temos o sopro dos ventos suaves que nos trouxeram até aqui.
E elas nos trouxeram para a  Estação do amor.