domingo, 25 de agosto de 2019

BEIJO ROUBADO (Hélio Cervelin, 25ago19)



Autor: Hélio Cervelin

Era inverno, e o ano 2019. Uma academia de Pilates.
E, repentinamente, ela surge! Aparência jovem, usando um vestido branco de renda, ela estava lá, em pé. De olhar sério, compenetrado, sem mirar ninguém, especificamente. 
Assalta-me, de imediato, a surpresa, a perplexidade. Estamos no ano de 2019! Como ela pode estar aqui? Diante da surpresa, as lembranças afloram. 
O ano era 1977. Lembro-me de um dia frio, pela manhã, na cantina da empresa pública em que trabalhávamos, na Avenida Mauros Ramos, em Florianópolis. Ambos chegamos para tomar café. Aproveitei-me de sua distração (ela com um pedaço de pão nas mãos) e roubei-lhe o primeiro beijo.
- Seu louco!, disse ela, assim que se desvencilhou do meu assédio. 
Éramos jovens, e eu estava me apaixonando por ela e vinha demonstrando isso. E sentia certa reciprocidade. Daí a coragem para realizar aquele ato atrevido.
Numa das conversas que tivemos, ela revelara que já tinha um amor. Era um jovem "subversivo", foragido do país e exilado na Inglaterra.  Ele havia sido "retirado", clandestinamente, do país após participar de alguns eventos de resistência ao regime militar, na qualidade de filiado ao Partido Comunista do Brasil, uma  agremiação proscrita desde o início do Regime Militar.
Diante das ponderações de Maria da Graça (vamos chamá-la assim),  pude perceber que minhas chances de conquistá-la seriam mínimas. Logo eu, um simples burguês, idealista, porém sem nenhum preparo de resistência a qualquer regime, detendo um vocabulário  pobre quando o assunto era engajamento político ou enfrentamento da ditadura militar.  Quanto ao rapaz, ela havia me mostrado uma foto: era um belo jovem, de cabelos escuros, lisos e barbas longas, como convinha aos comunistas da época, em homenagem aos líderes da Revolução Bolchevique da União Soviética. Naquela época, eu também usava barba e cabelos longos.
Dois anos mais tarde, eu até poderia apresentar-lhe algum argumento de esquerdista, quando a única informação de que dispunha a meu favor foi o fato de estar  presente, no início da Rua Felipe Schmidt, encostado na Loja Saco e Cuecão, quando aconteceu aquilo que ficou conhecido como "Novembrada", um ato público de hostilidade ao Regime Militar. Era  o dia da visita a Florianópolis do Presidente da República, o  General João Baptista Figueiredo. Na semana seguinte haveria nova manifestação na Praça XV, desta vez enfrentada com muita violência pela cavalaria militar, portando baionetas caladas contra os manifestantes desarmados. 
Devido àquelas manifestações, cinco jovens universitários foram enquadrados na Lei de Segurança Nacional.  Um drama semelhante ao do namorado dela, só que desta vez com a prisão consumada, trazendo muitos dissabores às famílias dos presos e aos militantes da Esquerda de Florianópolis.
Passados alguns anos, após a anistia, em 1979, o jovem exilado voltou, mas  seu romance com Maria da Graça não vingou. Mais tarde, eu já casado  e convivendo em nova empresa como colega de Maria da Graça (de novo, estávamos na mesma empresa), constatei que ela havia encontrado um novo amor, e era muito feliz com ele. Mas havia um problema: ambos eram viciados em drogas. E foi isso que dizimou a vida dela, ainda jovem.
Assim como surgiu, ela também desapareceu. A Maria da Graça que vi, na verdade apareceu-me em sonho. Talvez para dizer-me que encontrou novos caminhos e que continua vivendo feliz no espaço indefinido.
 

terça-feira, 13 de agosto de 2019

A VIAGEM DA VIDA (Elizete Menezes)


Minha foto
Autora Elizete Menezes

Começa a viagem, a viagem da vida. Sim, da vida.
Começa essa viagem na concepção. É uma trajetória para quem carrega um embrião no ventre, mas também para o embrião, porque a partir daí ele começa a sua viagem particular. Dia após dia, mês após mês, até que se complete o trajeto da viagem. 
Nesse percurso só há a condutora e o passageiro. A viagem está prevista para nove meses, que, geralmente, é o prazo certo para chegar ao seu final e dar início à outra viagem. Para alguns a viagem termina antes do prazo marcado.
Por um motivo justo a viagem tem que ser interrompida para que o condutor e passageiro comecem a se preparar para a chegada. Mas, a viagem só foi interrompida por algumas horas, porque ambos começam uma nova viagem. E essa não tem data nem hora definida para acabar. Mas tem data e hora para recomeçar. E, a partir daí, eles começam uma longa viagem para a vida, não mais como condutora e passageiro, mas como parceiros de viagem, dois passageiros. E a antiga condutora se doa por inteiro ao passageiro indefeso, frágil, para que essa viagem seja longa, com muito amor e dedicação.
A condutora segue a viagem com seu passageiro a tiracolo, levando-o para todos os lados, cuidando, alimentando, ensinando, educando, dando-lhe amor e carinho.
Afinal essa é uma das melhores viagens que o passageiro poderá fazer, pois, dentre tantas outras viagens que ainda irá fazer, esta não tem comparação. 
A condutora sabe que logo chegará a hora do  passageiro seguir a viagem sozinho.  E, com muita sabedoria, ela faz todo o  possível para que isso aconteça da melhor forma.
Ate porque, eventualmente, a viagem poderá acabar, abruptamente. Para um ou para o outro. Sendo assim, quem ficar terá que seguir, não dá para parar.
A viagem da vida tem começo, meio e fim. Seja para a condutora ou para o passageiro.


segunda-feira, 12 de agosto de 2019

UMA PONTE NO ABISMO (Querubina Ribas)

Autora: Querubina Ribas

Há tempos atrás, andando pela universidade, resolvi ir por uma trilhazinha  que passa nos fundos do curso de economia. Quando passava  em frente a uma janela, ouvi a voz inconfundível de um ex-governador e professor dizendo para seus alunos “vivemos numa sociedade midiática”. Só ouvi esta frase, mas foi o suficiente para que eu refletisse o quanto a mídia afeta e determina o comportamento e as escolhas em nossa sociedade.
Nós, cidadãos comuns, não temos a vaga ideia de como operam as poderosas e globalizadas  empresas  que controlam a mídia. Nem  como as notícias, verdadeiras ou falsas são produzidas, com que rapidez são divulgadas,  qual o público que querem atingir e com que finalidade.
Vivi, até a idade adulta,  tendo como meios de comunicação o rádio, as cartas, os telegramas, as comadres da minha mãe ou algum parente que viajavam uma manhã inteira para comunicar os nascimentos, mortes na família, fazer um convite para um casamento ou  para outra comemoração.
Quando o rádio começou a ser comercializado e meus pais resolveram comprar um, ficamos maravilhados com aquele moderno meio de comunicação. Foi uma verdadeira revolução nos hábitos da família. Nosso aparelho ficava em um lugar de destaque, na sala de jantar. A única pessoa que podia ligá-lo era nosso pai. As crianças passavam, respeitosamente, por perto. No final do dia, depois do jantar, sentávamos ao redor da mesa e o pai ligava-o para ouvirmos A Voz do Brasil. O programa começava sempre com a ópera O Guarani, de Carlos Gomes, depois vinham as notícias. Às vezes, ouvíamos, também, a Rádio  El Mundo, de Buenos Aires. Era o momento mais bonito e musical. A velha casa vibrava ao som de tangos e milongas.  Tanto na hora da Voz do Brasil como na dos tangos e milongas, não havia conversas entre os adultos e muito menos entre as crianças. Era um momento importante e solene para a família. Para nós, as crianças, as notícias da Voz do Brasil soavam estranhas. Não entendíamos o que queriam dizer, o que significavam aquelas leis e medidas tomadas pelos governo. Os tangos e milongas da Rádio El Mundo eram o que havia de bom e bonito em nossas vidas. Pois o ambiente se enchia de alegria e eram um luxo, naquela casa pobre onde a alegria era pouca e nunca teve festas.
Hoje, fico assustada e preocupada com o poder instantâneo que tem a mídia de criar uma corrente  do bem ou do mal. Diariamente, recebo uma quantidade enorme de mensagens.
Como não  sei o que fazer para verificar sobre a veracidade do conteúdo, apago todas.
Conforme o remetente, até desconfio sobre o teor da mensagem. Mas mesmo assim não leio.
Fico irritada quando me enviam mensagens que são totalmente opostas a tudo que vivo e penso. Acredito que existe certa arrogância, prepotência e falta de ética por parte dessas pessoas. Não existe atitude mais indigna e até repugnante do que usar um espaço na mídia eletrônica  para fazer defesa cega, fanática de um  político ou partido. Esse tipo de comportamento cria um abismo entre as pessoas. E tudo que precisamos, hoje em dia, mais do que nunca é  criar pontes, unir as pessoas e não ampliar e aprofundar o abismo existente.


A GRANDE MIRAGEM (Áurea Wolff)



Autora: Áurea Wolff

Correndo pelo asfalto molhado
Meus olhos enxergaram o universo
Como se fosse um céu estrelado
Colocando poeira no meu verso
A saudade olha pra frente
Quer um livro escrever
Cultivar a memória histórica
Que se recusa de ilusão viver
E olhando no espelho a imagem
Dá o primeiro passo do livro – A GRANDE MIRAGEM       


AS LINGUAGENS DA NATUREZA (Hans Wiedemann)


Autor: Hans Wiedemann
Sentado entre Arvores
Rodeado de pássaros
Cada um com seu cantado
Havendo entre eles Bem-te-vis
Joãos de Barro, Gralhas azuis.

Cantando de polos opostos
Respondem seus parceiros
Cada um com seu canto
Chamando para acasalar
Dando continuidade à Vida.

O dia está cinzento
Com temperatura agradável
As folhas caídas no chão
Havendo animais passeando
Procurando a alimentação.

Para toda folha que cai
Uma nova vai surgindo
Mantendo o verde da Esperança
Mostrando o sequenciamento
Havendo alimento para todos.

A Natureza mantém o equilíbrio
De todos os Elementos
Inclusive do Reino Humano
Que insiste em o destruir
Por falta de consciência.

Nosso desafio é desenvolver
A plena Consciência
Tendo cada um sua responsabilidade
Acreditando na Humanidade
Sendo a Espiritualidade a Essência.

Hans
Leia o blog         http:\\vamospensaravida.blogspot.com.br

VIAGEM AO INTERIOR DE MIM MESMA (Eliana Haesbaert)


Autora: Eliana Haesbaert


Com sete décadas vividas, pode-se dar ao luxo de comentá-las honesta e sinceramente.

Fazer isso sem causar danos a quem quer que seja, sem ter novas aspirações, pois o tempo útil está se esvaindo e a finitude encontra-se cada vez mais perto é, na realidade, um privilégio.
Privilégio por ter saúde, lucidez e possibilidade de registrar esses pensamentos, enquanto sabe-se que a grande maioria dos brasileiros das regiões sul e sudeste morrem na faixa dos 70 anos de idade, agora, pois quando eu era estudante a média aqui era de 57 anos.

Nunca tive medo da morte, somente não gostaria que ela me trouxesse dores e sofrimento e, pior, que seja demorada e lenta.
Pediria que minha morte fosse como dizem os muçulmanos, em deferência ao próximo:
Vida longa e morte rápida!”

Quanto a ir para outra dimensão ou para um novo ciclo de aperfeiçoamento, chegarei lá com uma bagagem boa de tudo que vivi e aprendi nesta breve passagem.
Falo e penso na morte com naturalidade, pois a vida é apenas tudo aquilo que acontece entre o nascimento e a morte e entendo que ela é apenas o fim do corpo físico, essa matéria que usamos emprestada que não vale mais nada.

A civilização ocidental cristã é que dramatizou a morte, criando um ritual funesto e caro, criou o luto e até as carpideiras, aquelas mulheres pagas para chorar muito e o tempo todo nos velórios.
Felizmente essa bizarrice acabou.

Mas quero falar aqui da vida que me encanta e foi camarada comigo.
Basta deletar os maus momentos, pois de nada adianta chorá-los e perpetuá-los.
Isso é puro masoquismo.
A gente apenas abandona os maus momentos lá no fundo do baú da memória e cuida de deixá-los adormecidos, pois cada vez que eles vêm à tona, incomodam, tumultuam e às vezes demoram a se aquietar.

Como escreveu Pedro Nava, “não sinto raiva, mas tenho memória”.
E a minha memória passada a limpo, me mostra uma infância,  adolescência e mocidade felizes, a maturidade com altos e baixos, penúrias e farturas, como tudo na vida é como o movimento das ondas do mar. Fazem parte do moto contínuo.
Tudo, tudinho tem os dois lados: o positivo e o negativo ao longo da existência e a gente vai vivendo, aprendendo, superando e se reinventando.
O tempo todo.
A cada percalço, eu dizia: “Se garoar, já passo o rodo!".
E com isso aprendi e pratiquei ótimas faxinas no meu viver. Até chegar no aqui, agora.
Nesta envelhecência gratificante, prazerosa, quando a liberdade que tenho não tem preço.
E os sentimentos ficaram mais brandos.
Não tenho mais pressa de nada, fiquei mais tolerante,   
cuidadosa e, por que não confessar? Egoísta também.
Resolvi que posso me dar o direito de não me sacrificar pelos outros e só fazer aquilo que quero, que gosto, uma vez que não estou prejudicando ninguém.

Sinto-me na obrigação de confessar que não me arrependo de nada, somente sinto arrependimento daquilo que não pude fazer nesta vida, como viver morando em Paris, nas décadas de 20 e 30, entre as duas grandes guerras, quando Paris, a Cidade Luz, protagonizou os dias alucinados e esfuziantes, numa orgia cultura imensa.

Porém até isso eu pude compensar lendo muito sobre essa época e vendo vários filmes com esse cenário de fundo.
Paris é, acima de tudo o “savoir vivre” no “savoir faire”.




SER PAI, ENTENDER UM PAI (Hélio Cervelin, 12 ago 2019)

Autor: Hélio Cervelin
  
A vida humana contém muitos  paradoxos, sendo um deles o de somente conseguirmos reunir as condições para entender o que é ser pai depois que nos tornamos pais, ou até mesmo depois de nos tornarmos avôs.
O meu pai era um brasileiro de origem italiana, alto, forte e corajoso, que teve morte prematura causada por um AVC, em 1963, aos quarenta e seis anos de idade. Não tinha ainda nenhum neto, e partiu antes que eu completasse os meus treze anos de idade, início de minha adolescência. Era um agricultor, mas tinha diversas outras habilidades ou profissões. Tenho muitas lembranças boas de nossa vida no sítio.
Um dos  momentos inesquecíveis da nossa convivência foi quando ele me levou para a floresta de sua propriedade, no alto de uma colina, situada além das roças já plantadas,  onde me deixou passar o dia com ele, fazendo-lhe companhia.  Naquele dia, à força de golpes de machado, ele derrubava árvores de madeira de lei e as esquadrejava para transformá-las em troncos retos, destinados a serem os pilares da nova casa de madeira que ele mandaria construir.
As casas dos descendentes de italianos - principalmente - não  poderiam prescindir jamais do porão, que era o local em que se armazenava, em enormes pipas (barricas) de madeira,  o vinho produzido no próprio sítio. Lá também era o local utilizado  pela família para destrinchar os suínos e fazer toucinho, banha, salame e linguiças, e também para a produção de queijos artesanais com o leite tirado das vacas leiteiras do sítio. O trabalho era feito sobre fortes mesas de madeira maciça, todos munidos de afiadas facas e apoiados por estranhas máquinas de moer carne e embalar as linguiças.
Lembro-me de que ele, com o intuito de me distrair e não ficar exposto ao perigo de algum acidente enquanto realizava sua tarefa, cortou a base de um longo cipó que pendia de uma alta árvore não muito distante, transformando-o num belo balanço. Assim, agarrando com as duas mãos aquele cipó, pude ficar  me balançando,  indo e voltando, tal qual um jovem Tarzan das selvas africanas, personagem este que eu só conheceria mais tarde, ao frequentar um cinema.
Aquele dia foi para mim de uma grande emoção de uma enorme realização. Só não consigo lembrar o porquê dentre tantos irmãos que eu possuía - um total de dez -  só eu tive o privilégio de estar com ele naquele dia, já que, quando nasci, a família dos meus pais já era numerosa: seis filhos. Com certeza, os meus irmãos estavam em outras atividades, adultos que já eram.  
O nome do meu pai era Albino, e quando foi convocado  para as Forças Armadas, em 1941, aos vinte e poucos anos, já era casado com minha mãe, Otilia. Lembro-me de ter lido algumas cartas de amor que eles trocaram durante a permanência dele num quartel do Exército em Curitiba, onde ficou por quase dois anos, tendo contraído febre tifoide, o que  impediu que fosse convocado para o front da Segunda Grande Guerra Mundial.
Sua permanência nas Forças Armadas permitiu-lhe adquirir muitas habilidades, a  ponto de tornar-se líder em nossa comunidade denominada Linha Vitória, no então município de Capinzal, neste estado de Santa Catarina. Era ele o presidente da comissão de diáconos da capela católica e também coordenador do coral da igreja. Era ele também quem comandava a reza do rosário aos domingos nos quais não havia celebração de missa. Padres, naquela comunidade e época, eram raros, e só vinham ao local para batizar ou realizar casamentos. Era ele, também, quem realizava o sepultamento dos mortos com exéquias celebradas em latim. Ele também organizava as quermesses da comunidade.
Meu pai tinha noções de primeiros socorros, aplicando injeções nos doentes, ao mesmo tempo em que atuava como Veterinário, aplicando vacinas nos animais da vizinhança, além de tratar das doenças do gado, realizando também castrações em bois e porcos, e aferramento de cavalos. Chegou a atuar como ferreiro e marceneiro. Também era produtor de vinhos, melado, açúcar e mel. Ele possuía uma gama de ferramentas para as suas mais variadas atividades.
Não bastassem todas essas ocupações, ainda exercia o cargo de "Inspetor de Quarteirão", uma espécie de subdelegado distrital (comunitário) de polícia. Todos os conflitos entre vizinhos acabavam parando em suas mãos. Talvez por isso mesmo, pela liderança exercida, tenha sido candidato a  vereador pela coligação PSD/PTB, na década de 1950/60. Foi uma espécie de Super-Homem, multidisciplinar.
Era um homem de ética rígida, temente a Deus e austero em sua conduta, mas de  "pavio curto".  Passou por muitos sofrimentos no difícil trabalho da lavoura, uma vez que o solo era  pedregoso e íngreme e o clima adverso, fazendo muito frio naquela região, cujas intempéries chegavam a comprometer as safras de trigo, milho e feijão. Normalmente, quando o clima ajudava e a safra era boa, os preços caíam. Não havia preços mínimos regulados pelo governo naquela época. Muito menos o "seguro-safra", como  é hoje em dia.
Perdeu dois filhos de dois anos e meio de idade devido à difteria (conhecida na época por crupe), uma doença nefasta, que trancava as vias respiratórias, e para a qual não havia vacinas na época. Situações traumáticas, só absorvidas devido à ação da religião católica, que para tudo tinha uma explicação: a vontade de Deus.
Comparando o mundo daquela época com as facilidades de hoje, trazidas pela tecnologia, posso afirmar que o meu pai e todos os pais agricultores da época foram grandes heróis, magníficos heróis! E também escravos do trabalho braçal. Uma época de angústias causadas por doenças e acidentes no trabalho só compreendida por quem viveu naqueles dias.  
Muito obrigado, meu querido pai! A cada dia que passa te entendo, te amo e te respeito mais e mais.

"Aprendemos a ser filhos depois que somos pais. Só aprendemos a ser pais depois que somos avós..."                                               (Afonso Romano de Sant'Anna in Para quem é pai).