quinta-feira, 2 de junho de 2022

QUEM FOI ALBINO CERVELIN? Texto de Hélio Cervelin (Em 31 Mai 2022)

 











Autor: Hélio Cervelin

Albino Cervelin, meu pai, seu avô, bisavô.

Albino nasceu em abril de mil novecentos e quatorze, de uma família numerosa, descendente de italianos, em Guaporé (RS) e faleceu em 16 de outubro de mil novecentos e sessenta e três, no então distrito de Ouro, município de Capinzal, SC, com quarenta e seis anos de idade, vitimado por um AVC.

Era agricultor, trabalhava de sol a sol, e tinha muitas habilidades profissionais. Além de trabalhar na roça plantando feijão, trigo, milho, arroz e criando ovelhas, porcos, galinhas em seu sítio adquirido com muito sacrifício, ele também tinha parreiral, onde produzia uvas e elaborava vinhos. Cultivava cana-de-açúcar e produzia melado e açúcar mascavo para o consumo da família. Tinha um enorme pomar com diversos tipos de frutas.

Quando jovem e recém-casado, com mais de 20 anos de idade, foi convocado a servir ao exército em Curitiba, e lá ficou doente do Tifo, o que impediu sua convocação para o front da Segunda Guerra Mundial. Permaneceu no quartel durante 18 meses, depois obteve baixa e retornou para a casa de seu pai, o nono Vitório, em Linha Vitória, hoje município de Ouro, estado de Santa Catarina, onde minha mãe, Otília, já havia dado à luz ao primogênito Valdir.

Ele tinha habilidades como ferreiro, carpinteiro; sabia aplicar injeções nos animais, atuando como veterinário; fazia castrações de porcos e bois, tosquiava ovelhas, domava cavalos; sabia fazer salame, torresmo, banha e outros produtos oriundos do abate de suínos; era treinado no uso de armas de fogo. Possuía vários tipos de ferramentas. Também atendia as pessoas, aplicando injeções.

Era o líder da comunidade e do coral de igreja da vila. Era ele quem rezava o rosário de todos os domingos e quem fazia o enterro dos mortos, rezando o Réquiem em latim. Ainda sobrava espaço para ser o Inspetor de Quarteirão, uma espécie de investigador policial local, sendo chamado quando havia desavenças entre vizinhos. Também foi líder político, chegando a ser candidato a vereador pelo PTB, partido de Getúlio Vargas.

No final de sua vida, meu pai adquiriu a doença do Alcoolismo, o que tirou um pouco do brilho de sua trabalhosa e vitoriosa caminhada.

Albino foi um polivalente, uma pessoa atuante em seu meio, criou e encaminhou todos os filhos. Tenho orgulho da memória do meu querido pai. Reverenciemos sua memória.

terça-feira, 17 de maio de 2022

VIDEOTEIPE (Hélio Cervelin, 25 ago 1983)

 



Autor: Hélio Cervelin

E quando chegar a "hora final" você estará preparado para suportar o videoteipe?

Sem conseguir entender como chegou lá, você se percebe na presença do Senhor Todo-Poderoso, um imponente homem de vestes brancas e longas barbas, ao lado de um trono cintilante e defronte a uma tela. Ele tem um projetor ligado, interruptor em punho, régua fina e longa na mão, apontando para a tela, tocando-a com ruídos secos, característicos do trabalho de um professor compenetrado.

E com olhar grave e expressão acusadora, argumenta o Senhor:

- Erraste aqui, aqui e aqui!

Você balança, estremece, começa a ficar gelado...

- Te omitiste aqui, aqui e aqui!

Você começa a baixar a cabeça...

- Vacilaste aqui, aqui e aqui...

E, inclinando-se - constrangido - você exclama, mais para si mesmo: - Eu fiz isso?!

E os teus erros continuam sendo apontados, um após outro, perante um tribunal anciães sóbrios e de semblante impenetrável.

- Prejudicaste o teu colega, aqui. (E continua apontando os eventos gravados)

A essa altura a tua cabeça começa a se inclinar para frente. A exposição inconteste dos fatos pretéritos é tão impiedosamente avivada que o seu queixo já está tocando o teu peito.

- E tem mais isto - aponta o Senhor para outro trecho do vídeo.

E então você começa a sentir um tremor nas pernas, uma fraqueza crescente, e a sentir o seu corpo irá desabar, pois que está começando a prostrar-se.

- E como se não bastasse.... - continua a ladainha do Pai Celestial, sempre apontando para novos fatos desabonadores. E você desaba. Sua testa cola no chão. Você está literalmente arrasado. Humilhação pura! Prostração total! Aí você pensa: "Estou condenado ao fogo do inferno".

- Todavia... Balbucia o Senhor.

Alerta Geral! "Será que haverá alguma misericórdia para mim?"- pensa.

- Ajudaste a este pobre homem em um momento crucial... (É o Senhor, continuando, sempre apontando para a tela e identificando os envolvidos).

Sua testa começa a descolar do chão.

- Suportaste calado, aqui, aquela repressão interminável. (O teu nariz começa a sentir certo alívio).

- Sofreste quase duas décadas estudando, frequentando escolas todos os dias, levantando cedo, fazendo as lições de casa, pesquisando, lendo...

Neste momento você já começa a recompor-se. Senta no chão.

- Resististe, bravamente, às cantadas destas mulheres (aponta para uma linda mulher loura), destas morenas (aponta para lindas morenas) e desta ruiva...

A essa altura a tua posição já começa a ficar menos desconfortável, o teu moral começa a elevar-se, e você também começa a soerguer-se.

E Ele continua:

- Conseguiste suportar o teu chefe durante trinta e cinco longos anos, cumprindo suas ordens, executando tarefas, aguentando o seu mau humor, rindo de suas piadas sem graça. Também suportaste com bravura os maus humores de tua esposa, especialmente em períodos de TPM, durante quarenta e três anos, ajudando-a a criar, alimentar, vestir e educar essas seis crianças, que hoje são jovens saudáveis e preparados para a vida, apesar do alto custo da educação no país. Além disso, ainda conseguiste sobreviver à pressão econômica do FMI e às políticas salariais e tributárias por ele impostas através dos teus governantes.

A essa altura você já está em pé, e os aplausos começam a aparecer. Primeiro tímidos, e em seguida estrepitosos. Ao teu redor senhores de longas barbas grisalhas sorriem e lhe aplaudem freneticamente.

Diante da reviravolta da situação você já está quase se arriscando a um palpite e se perguntando:

- Será que consegui um superávit no meu balanço do pagamentos?















quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

BRUNA (Hélio Cervelin)











Autor: Hélio Cervelin

Bruna,
Brumas de uma potente onda que açoita o rochedo

Sem medo

É a sua força que vence minha dor

Que forja o meu amor por ela.

Bruna,
Leves brumas


Que, com suavidade, contornam as nuances, saliências, deficiências
Do meu corpo imperfeito, mal cuidado, maltratado

Trazendo-me a esperança


De ser feliz ao seu lado. 

quinta-feira, 28 de outubro de 2021

MIL E UMA NOITES (a odalisca Hérica) Hélio Cervelin

 


Autor: Hélio Cervelin


O véu que ela ostenta esconde o seu belo rosto

É lindo, sim, eu não iria me enganar

Pois que acompanha o lindo sorriso dela

Denunciado pela meiguice do olhar


Sei que debaixo desse véu há uma boca

Sensual e ansiosa pra dizer palavras de amor

Sem preocupar-se com o moral e o imoral

Ávida por beijos sôfregos, carregados de calor


Fico imaginando ela dançando pra mim

Lindas canções do Oriente, o seu corpo a balançar

Que, em movimentos sinuosos se insinua

Suas finas mãos riscando desenhos no ar


O seu perfume já invade o ambiente

Inebriando o pensamento e a emoção

Pra saber a hora de pedi-la em casamento

E atender o que me pede o coração


Mil e uma noites de amor terei com ela

Em nossa relação só amor, delicadeza

O nosso mundo será pleno e feliz

Seremos sempre um príncipe e uma princesa


domingo, 24 de outubro de 2021

AUGÚRIOS DE PAZ Hélio Cervelin (23 Out 2021)



Autor: Hélio Cervelin


Que o seu passo seja largo

Seu sorriso bem aberto

Seu pensamento sereno

E seus amigos por perto


Que sua estrada seja livre

Seus trajetos sem espinhos

Seu guia seja inspirado

E adorne com flores seus caminhos


Que seu pensamento seja livre

Aberto ao novo, ao moderno

Que seu ânimo nunca se exalte

E seja afável, fraterno


Que valorize os amigos

Reconhecendo seu valor

Enaltecendo a amizade

Pelas veredas do amor


Que sua chegada seja alegre

Que louvem tudo o que faz

Que as resultantes se assentem

Nas bases firmes da paz.








 

domingo, 10 de outubro de 2021

LÁGRIMAS DO TEMPO (Hélio Cervelin)

 










Autor: Hélio Cervelin


Nosso tempo só quer chover

Chover, chorar sem parar

Pedir para que pare é inútil

Suas lágrimas molhadas não querem cessar


O céu virou um grande rio

A cascata parece não ter fim

Quem levou tanta água lá pra cima?

E quem mandou derramá-la sobre mim?


Saem os dias, entram as noites

E as águas choram aos cântaros deitados

Será que precisamos tanto nos purificar?

Estaremos todos assim tão maculados?


Sei que a água, por fim, é uma bênção

Que a tudo rega, faz brotar a flor

Faz germinar a tenra semente

Que nos traz o pão com amor


Os dias ensolarados também chegarão

Deixemos nosso tempo se ajustar

Ele é a resposta da natureza

Que, em sua justeza, sabe o que deve nos proporcionar


Raios, coriscos, trovoadas

Fazem parte da paisagem natural

Assim como as cores do arco-íris

E as borboletas que povoarão o meu quintal


sexta-feira, 17 de setembro de 2021

REENCONTRO Hélio Cervelin (17 set 2021)

 









Autor: Hélio Cervelin

Esperava ansiosamente pela atenção de minha mãe. Queria que ela olhasse as unhas dos meus pés.


Depois de um certo tempo, ela finalmente chegou. Eu já me encontrava sentado numa cadeira, os pés levantados sobre outra. Então ela veio e começou a trabalhar, dedicada e amorosamente, as unhas dos meus pés. Depois de determinado tempo, afastou-se.

Percebendo a demora, chamei-a.

Então ela disse:

O que foi, meu filho?

E eu lhe respondi:

A senhora não vai terminar?

Ao que ela afirmou: - Eu já terminei.

Desculpe, pensei que estivesse descansando!, ponderei.


Então levantei-me para lhe agradecer, beijando sua face direita.


Minha mãe era uma mulher alta, esbelta, cabelos castanhos. Usava um vestido longo, claro, com estampas florais suaves.


Então ela se movimentou, ficando de pé ao meu lado. Entendi que queria mais um beijo. Então a beijei novamente, desta vez na face esquerda, de pele alva.


Isso feito, encaminhei-me para o meu quarto, encontrando no caminho o meu sobrinho Aírton, cantando a plenos pulmões a canção antiga de Tonico e Tinoco, Chico Mineiro, que dizia:


Fizemos a última viagem
Foi lá pro sertão de Goiás
Fui eu e o Chico Mineiro
Também foi o capataz


Sem interromper, sorri para ele, apontando o indicador para baixo, rente ao chão, para dizer-lhe: _ - - Você tirou essa lá do fundo do baú!


E com isso, eu me acordei. O meu sonho acabou. Mas fiquei feliz com o reencontro.


Minha saudosa mãezinha, Dona Otília, faleceu há 44 anos, em 1977. Aírton é o segundo neto de minha mãe.