quinta-feira, 5 de setembro de 2019

PROMESSA (Áurea Wolff, 28 ago 2019)



Autora: Áurea Wolff

No dia 28 de julho de 1940 a dona Mariquinha recebeu de sua nora algumas velinhas. Seu neto, que morava numa cidade distante, pedia, numa carta, que sua mãe comprasse umas velinhas e acendesse no oratório da vovó Mariquinha, para pagamento  de  uma promessa que ele fizera “aos santos da dindinha".
Neste dia 28 de julho, dona Ida foi na casa da sogra e comentou: “já recebi duas cartas deste filho recomendando que eu pague esta promessa. Estou realizando o seu pedido. Não entendo como é que um rapaz tão jovem, (18 anos) morando numa cidade grande, com tantas distrações, esteja tão preocupado em pagar a promessa aos santinhos da dindinha.".
À noite, a dona Mariquinha colocou as velinhas em castiçais de louça, abriu o oratório que ficava no final do corredor e, na frente dos santinhos, depositou os castiçais. Teve o cuidado de verificar que as velas estavam longe das flores de papel que adornavam aquele santuário, acendeu as velinhas e foi deitar.
Lá pelas tantas, já estava dormindo, quando acordou com um barulho estranho, como se tivessem aberto uma porta ou arrastado uma cadeira. Abriu a porta do quarto que dava para o corredor, onde estava dormindo, e viu um clarão, vindo do oratório, que iluminou todo o local. Muito assustada entrou no quarto e chamou pelo marido: “acorda, Zeca! Pegou fogo no oratório!"
Saiu correndo para o corredor na direção do fogo. Mas o fogo tinha apagado e tudo estava escuro. Ela acendeu uma lamparina, foi até ao oratório e verificou que as velinhas tinham queimado até o fim, as flores de papel estavam intactas, tudo estava como ela havia deixado, e não havia sinais de fogo.  Achou estranho, comentou com o  marido e foram dormir novamente.
O lugarejo onde moravam era no interior, onde as informações levavam alguns dias para chegar ao seu destino.. Uma semana depois deste acontecimento, uma pessoa da família, que morava na cidade recebeu dos canais competentes o aviso da morte deste jovem, que ocorreu no dia 29 de julho, e solicitava a este parente que levasse a triste notícia à família.
Foi um terrível choque. Ele era um jovem cheio de vida, muito amado por todos e que tinha escolhido ir para a cidade grande com o fim de trabalhar e conduzir sua vida.
No meio de muita dor, a vovó Mariquinha lembrou que naquele dia, exatamente dia 29 de julho, ela tinha acendido as velinhas pagando as suas promessas, e entre  lágrimas ela falou do clarão no oratório: “ele veio agradecer porque pagaram a sua promessa, e veio se despedir.".
Este fato ficou na história da família como um acontecimento sobrenatural.
E sempre foi lembrado como o adeus às pessoas que ele amava.


domingo, 25 de agosto de 2019

CRIAR É ENCONTRAR (Hans Wiedemann)


Autor: Hans Wiedemann

Criar é garimpar
Os fenômenos da vida
Pensando na Natureza
Que tem todas as respostas
Muitas nos transparentes.

Criar é encontrar
Brilhantes entre rochas
Que permitem o fruto
De todos os conhecimentos
Cintilando como diamantes.

Cabe ao Ser criativo
Distinguir seu reflexo
As expondo ao Ar
Dando-lhes utilidades
ajudando o Ser.

Criar é somente uma face
Da nossa existência na Terra
Preenchendo lacunas
Que na peneira existem
Sendo nossas existências.

Os fios que tecem a peneira
São nossas conexões
Das comunicações
Entre todos os nós
Perfazendo o Infinito Divino.

Hans
Leia o blog         http:\\vamospensaravida.blogspot.com.br

MULHER COM UM BURACO NO CORAÇÃO (Querubina Ribas)



Autora: Querubina Ribas

A chuva fina bate forte na minha janela. E, mesmo com os vidros fechados,  eu posso ouvir o vento forte que vem do sul. Puxei o cobertor. Acomodei os travesseiros e me preparei para um dia especial.
Antes de começar a ler o livro, li os breves dados sobre a autora. Cheryl Strayed escreve contos e ensaios para jornais e revistas americanas. Seu livro “ LIVRE A JORNADA DE UMA MULHER EM BUSCA DO RECOMEÇO", foi um dos livros mais vendidos na lista do New York Times. Foi um sucesso.
A foto que aparece na orelha mostra uma jovem com um sorriso enigmático. Não é tão misterioso como da Mona Lisa, mas me deixou com uma dúvida, se era um sorriso triste ou forçado. A autora conta sua própria história. Desesperada com a morte da mãe, inconformada com o fim do casamento, resolveu abandonar tudo e caminhar 1700 quilômetros por uma trilha. O início  da caminhada - desse encontro consigo mesma -- começou no sudoeste da Califórnia. Nas primeiras semanas, ela atravessou o deserto de Mojave. O mais árido e seco deserto americano. O  nome Mojave vem de uma espécie de cascavel que predomina nessa região. E, as cascavéis eram, no início da caminhada, a grande preocupação de Cheryl, além dos ursos e dos ferozes pumas, que segundo os noticiários, haviam comido três mulheres caminhantes solitárias, como ela. Outra preocupação era encontrar algum serial killer ou maníaco sexual no seu longo caminho.
O mundo está cheio de coisas aterradoras nos centros urbanos, e, por que seria diferente numa trilha deserta. Se essa mulher “ com um buraco o coração” queria provar para si mesma que era capaz de superar desafios, a caminhada através de um árido, difícil e longo caminho era um excelente teste, pensei.
Moro há quarenta anos no meio do mato. Todo verão encontramos cobras, em volta da casa. Dias desses,  a moça que  nos ajuda nos serviços, ligou dizendo que não podia entrar porque tinha uma jararaca dormindo em cima do tapete, na frente da porta. Quando fizemos a casa, combinamos que não mataríamos “ essas gentes da natureza” uma vez que nós é que tínhamos  invadido o habitat delas. Assim peguei uma vassoura, abri a porta e acordei a jararaca, com um leve toque. Ela se arrastou rapidamente e foi se esconder numa moita. Sempre tive mais medo de gente que de bichos.
Voltando ao livro, antes mesmo de terminá-lo, sabia que Cheryl iria aprender que os homens são mais letais, ferozes e perigosos que as cascavéis, os ursos e os pumas. Ela atravessou montanhas, rios, vales e florestas. Num final de um dia, acampou em Sierra Nevada, a dois mil metros de altitude. Do alto da cordilheira viu o sol se esconder, as estrelas e a lua surgirem e, no silêncio da noite, sozinha há muito tempo, se deu conta que todos os problemas  do passado que a fizeram chorar, se lamentar, usar drogas, haviam desaparecido. Seguiu em frente. Às vezes com medo, outras indecisa sobre o caminho que deveria seguir. Atravessou uma montanha nevada com quatro mil metros de altitude. Embora outros trilheiros  a tenham convidado para acompanhá-los, decidiu enfrentar sozinha os desafios da caminhada.
Nesta, parte do livro, lembrei-me de outro livro que li, há muitos anos passados e que desencadeou forte emoções na minha vida, naquela época: Los Cosmonautas de las Cosmopistas, de Cortazar. Nele, o autor narra uma inusitada viagem entre Paris e Marselha. “ Quién podría sospechar que no íbamos e ninguna parte”. Nos trinta e três dias que ficaram indo e vindo, sem se afastar do caminho que inicialmente escolheram para percorrer, Cortazar e Dunlop, sua mulher, nos levam a refletir  sobre os caminhos que escolhemos para percorrer e na dificuldade que temos de abandoná-los por mais difíceis que eles sejam. O medo do novo, do desconhecido faz com que não nos afastemos do que havíamos planejado.
Cheryl escolheu um dificílimo caminho. Enfrentou todo tipo de desafios para percorrê-lo. Muitas vezes teve de desistir. À noite, com as costas em carne viva por ter carregado uma pesada mochila durante horas, com os pés cheios de bolhas e calos, perguntava para si mesma, em voz alta, “ quem é mais durona do que eu”. E respondia  no mesmo tom de voz” NINGUÉM”. Descobriu, enfim, que era forte para suportar todas as dores que surgem na vida, sejam elas emocionais ou físicas. E que era inteligente e capaz de agir de forma surpreendente para resolver os problemas que aparecessem. Percebeu que tinha capacidade e força para suportar o que parecia insuportável.
Certo dia, ela caminhava tranquila por uma trilha e se deparou com um enorme urso. Parou. Ficaram frente a frente. Olhos nos olhos.  Naquele momento, sem nada para fazer, ela tirou um apito do bolso e soprou o mais forte que pode. O urso surpreso e amedrontado fugiu, mas foi na mesma direção que ela deveria seguir. Resolveu avisá-lo que estava no caminho e começou a cantar bem alto, o mais alto que pode.
Fiquei pensando se nós frente a um grande perigo, um sério problema, aparentemente, sem solução não deveríamos tomar as mais esquisitas, absurdas e inexplicáveis atitudes. Em vez  de ficarmos inertes, deprimidos, sem ação, deveríamos fazer o que Cheryl fez: tirar um apito do bolso, soprar bem alto, sinalizando que iremos seguir nosso caminho, com passos firmes e… cantando.                                                                                          

A VIAGEM (Lucila Mônica Fontana)


Autora: Lucila Mônica Fontana
Fiz uma viagem curta, de casa até a um centro médico, para uma simples consulta. O objetivo era verificar por que a minha cabeça, muito torta, parecia flutuar.
Pois a vida parece que prega peças a toda hora, nos deixando imaginar que, de repente, tudo acaba em um segundo apenas, onde você, por alguns minutos, desliga do mundo para o nada. Diferente, espero eu, de quando se parte desta vida para uma melhor, onde escutamos e lemos que, ao fim dessa estadia aqui na terra, um paraíso nos espera, e seremos eternamente felizes.
Um simples apagão, e não fui parar no paraíso, mas, simplesmente, nada ouvia,  nada sentia. Fiquei inerte, ignorando o que acontecia ao meu redor: médicos, enfermeiros, familiares em pânico tentando me devolver à realidade. Mas você não tem nenhuma reação.
Para eles, sensação de perda, mas você nada sente, e logo ouve longe alguém te chamar e tenta abrir os olhos e enxergar... Tenta responder, mas os sentidos estão longe,  e grande é o teu esforço para voltar à vida. Até que consegue, em meio a um grande mal- estar, responder algo e perguntar: "onde estou?"
E todos ao, seu redor, muito preocupados, mas sentindo que tudo está voltando ao normal. O alívio é geral, mas, para você, o teu mundo virou de ponta cabeça, pois não consegue assimilar o pensamento com a realidade de "apagar" e acordar onde sua cabeça não tem condições de nada.
Meu Deus, que viagem assustadora! Onde o ser humano logo pensa que a vida é um sopro e por pouco você não está mais aqui.
Aí sim, eu penso sobre o que somos, se temos valor para alguém, o que queremos da vida. Por que querer tanto algo, se tudo pode acabar em segundos? E tudo que terá serão lembranças do que foi sua vida, o que fez de bom pra você mesmo?        Pois, se partir, a vida dos que ficam vai seguir.
Então é preciso que se pense no que  realmente importa, pois a paz de espírito e sua consciência limpa por não ter prejudicado ninguém já fará de você um ser iluminado, pensando que só o amor em tudo que te cerca poderá te deixar de bem com você mesmo e seu anjo protetor te guardará para a tua viagem final.


BEIJO ROUBADO (Hélio Cervelin, 25ago19)



Autor: Hélio Cervelin

Era inverno, e o ano 2019. Uma academia de Pilates.
E, repentinamente, ela surge! Aparência jovem, usando um vestido branco de renda, ela estava lá, em pé. De olhar sério, compenetrado, sem mirar ninguém, especificamente. 
Assalta-me, de imediato, a surpresa, a perplexidade. Estamos no ano de 2019! Como ela pode estar aqui? Diante da surpresa, as lembranças afloram. 
O ano era 1977. Lembro-me de um dia frio, pela manhã, na cantina da empresa pública em que trabalhávamos, na Avenida Mauros Ramos, em Florianópolis. Ambos chegamos para tomar café. Aproveitei-me de sua distração (ela com um pedaço de pão nas mãos) e roubei-lhe o primeiro beijo.
- Seu louco!, disse ela, assim que se desvencilhou do meu assédio. 
Éramos jovens, e eu estava me apaixonando por ela e vinha demonstrando isso. E sentia certa reciprocidade. Daí a coragem para realizar aquele ato atrevido.
Numa das conversas que tivemos, ela revelara que já tinha um amor. Era um jovem "subversivo", foragido do país e exilado na Inglaterra.  Ele havia sido "retirado", clandestinamente, do país após participar de alguns eventos de resistência ao regime militar, na qualidade de filiado ao Partido Comunista do Brasil, uma  agremiação proscrita desde o início do Regime Militar.
Diante das ponderações de Maria da Graça (vamos chamá-la assim),  pude perceber que minhas chances de conquistá-la seriam mínimas. Logo eu, um simples burguês, idealista, porém sem nenhum preparo de resistência a qualquer regime, detendo um vocabulário  pobre quando o assunto era engajamento político ou enfrentamento da ditadura militar.  Quanto ao rapaz, ela havia me mostrado uma foto: era um belo jovem, de cabelos escuros, lisos e barbas longas, como convinha aos comunistas da época, em homenagem aos líderes da Revolução Bolchevique da União Soviética. Naquela época, eu também usava barba e cabelos longos.
Dois anos mais tarde, eu até poderia apresentar-lhe algum argumento de esquerdista, quando a única informação de que dispunha a meu favor foi o fato de estar  presente, no início da Rua Felipe Schmidt, encostado na Loja Saco e Cuecão, quando aconteceu aquilo que ficou conhecido como "Novembrada", um ato público de hostilidade ao Regime Militar. Era  o dia da visita a Florianópolis do Presidente da República, o  General João Baptista Figueiredo. Na semana seguinte haveria nova manifestação na Praça XV, desta vez enfrentada com muita violência pela cavalaria militar, portando baionetas caladas contra os manifestantes desarmados. 
Devido àquelas manifestações, cinco jovens universitários foram enquadrados na Lei de Segurança Nacional.  Um drama semelhante ao do namorado dela, só que desta vez com a prisão consumada, trazendo muitos dissabores às famílias dos presos e aos militantes da Esquerda de Florianópolis.
Passados alguns anos, após a anistia, em 1979, o jovem exilado voltou, mas  seu romance com Maria da Graça não vingou. Mais tarde, eu já casado  e convivendo em nova empresa como colega de Maria da Graça (de novo, estávamos na mesma empresa), constatei que ela havia encontrado um novo amor, e era muito feliz com ele. Mas havia um problema: ambos eram viciados em drogas. E foi isso que dizimou a vida dela, ainda jovem.
Assim como surgiu, ela também desapareceu. A Maria da Graça que vi, na verdade apareceu-me em sonho. Talvez para dizer-me que encontrou novos caminhos e que continua vivendo feliz no espaço indefinido.
 

terça-feira, 13 de agosto de 2019

A VIAGEM DA VIDA (Elizete Menezes)


Minha foto
Autora Elizete Menezes

Começa a viagem, a viagem da vida. Sim, da vida.
Começa essa viagem na concepção. É uma trajetória para quem carrega um embrião no ventre, mas também para o embrião, porque a partir daí ele começa a sua viagem particular. Dia após dia, mês após mês, até que se complete o trajeto da viagem. 
Nesse percurso só há a condutora e o passageiro. A viagem está prevista para nove meses, que, geralmente, é o prazo certo para chegar ao seu final e dar início à outra viagem. Para alguns a viagem termina antes do prazo marcado.
Por um motivo justo a viagem tem que ser interrompida para que o condutor e passageiro comecem a se preparar para a chegada. Mas, a viagem só foi interrompida por algumas horas, porque ambos começam uma nova viagem. E essa não tem data nem hora definida para acabar. Mas tem data e hora para recomeçar. E, a partir daí, eles começam uma longa viagem para a vida, não mais como condutora e passageiro, mas como parceiros de viagem, dois passageiros. E a antiga condutora se doa por inteiro ao passageiro indefeso, frágil, para que essa viagem seja longa, com muito amor e dedicação.
A condutora segue a viagem com seu passageiro a tiracolo, levando-o para todos os lados, cuidando, alimentando, ensinando, educando, dando-lhe amor e carinho.
Afinal essa é uma das melhores viagens que o passageiro poderá fazer, pois, dentre tantas outras viagens que ainda irá fazer, esta não tem comparação. 
A condutora sabe que logo chegará a hora do  passageiro seguir a viagem sozinho.  E, com muita sabedoria, ela faz todo o  possível para que isso aconteça da melhor forma.
Ate porque, eventualmente, a viagem poderá acabar, abruptamente. Para um ou para o outro. Sendo assim, quem ficar terá que seguir, não dá para parar.
A viagem da vida tem começo, meio e fim. Seja para a condutora ou para o passageiro.


segunda-feira, 12 de agosto de 2019

UMA PONTE NO ABISMO (Querubina Ribas)

Autora: Querubina Ribas

Há tempos atrás, andando pela universidade, resolvi ir por uma trilhazinha  que passa nos fundos do curso de economia. Quando passava  em frente a uma janela, ouvi a voz inconfundível de um ex-governador e professor dizendo para seus alunos “vivemos numa sociedade midiática”. Só ouvi esta frase, mas foi o suficiente para que eu refletisse o quanto a mídia afeta e determina o comportamento e as escolhas em nossa sociedade.
Nós, cidadãos comuns, não temos a vaga ideia de como operam as poderosas e globalizadas  empresas  que controlam a mídia. Nem  como as notícias, verdadeiras ou falsas são produzidas, com que rapidez são divulgadas,  qual o público que querem atingir e com que finalidade.
Vivi, até a idade adulta,  tendo como meios de comunicação o rádio, as cartas, os telegramas, as comadres da minha mãe ou algum parente que viajavam uma manhã inteira para comunicar os nascimentos, mortes na família, fazer um convite para um casamento ou  para outra comemoração.
Quando o rádio começou a ser comercializado e meus pais resolveram comprar um, ficamos maravilhados com aquele moderno meio de comunicação. Foi uma verdadeira revolução nos hábitos da família. Nosso aparelho ficava em um lugar de destaque, na sala de jantar. A única pessoa que podia ligá-lo era nosso pai. As crianças passavam, respeitosamente, por perto. No final do dia, depois do jantar, sentávamos ao redor da mesa e o pai ligava-o para ouvirmos A Voz do Brasil. O programa começava sempre com a ópera O Guarani, de Carlos Gomes, depois vinham as notícias. Às vezes, ouvíamos, também, a Rádio  El Mundo, de Buenos Aires. Era o momento mais bonito e musical. A velha casa vibrava ao som de tangos e milongas.  Tanto na hora da Voz do Brasil como na dos tangos e milongas, não havia conversas entre os adultos e muito menos entre as crianças. Era um momento importante e solene para a família. Para nós, as crianças, as notícias da Voz do Brasil soavam estranhas. Não entendíamos o que queriam dizer, o que significavam aquelas leis e medidas tomadas pelos governo. Os tangos e milongas da Rádio El Mundo eram o que havia de bom e bonito em nossas vidas. Pois o ambiente se enchia de alegria e eram um luxo, naquela casa pobre onde a alegria era pouca e nunca teve festas.
Hoje, fico assustada e preocupada com o poder instantâneo que tem a mídia de criar uma corrente  do bem ou do mal. Diariamente, recebo uma quantidade enorme de mensagens.
Como não  sei o que fazer para verificar sobre a veracidade do conteúdo, apago todas.
Conforme o remetente, até desconfio sobre o teor da mensagem. Mas mesmo assim não leio.
Fico irritada quando me enviam mensagens que são totalmente opostas a tudo que vivo e penso. Acredito que existe certa arrogância, prepotência e falta de ética por parte dessas pessoas. Não existe atitude mais indigna e até repugnante do que usar um espaço na mídia eletrônica  para fazer defesa cega, fanática de um  político ou partido. Esse tipo de comportamento cria um abismo entre as pessoas. E tudo que precisamos, hoje em dia, mais do que nunca é  criar pontes, unir as pessoas e não ampliar e aprofundar o abismo existente.