quinta-feira, 23 de novembro de 2017

PERDOAI-NOS, SENHOR (Hélio Cervelin)

Hélio Cervelin, o autor



Pelas mazelas do mundo
Por aquele olho fundo
Pelo golpe do vagabundo
Perdoai-nos, Senhor

Pelo gesto do pastor
Pelo nosso desamor
Por provocar tanta dor
Perdoai-nos, Senhor

Por toda pedofilia
Pela barriga vazia
Pelo João, pela Maria
Perdoai-nos, Senhor

Pelo nosso empreguismo
Por qualquer Capitalismo
Por todo maniqueísmo
Perdoai-nos, Senhor

Por toda perseguição,
Por nossa vã reação,
Pela nossa prostração,
Perdoai-nos, Senhor

Pelo umbigo da vedete
Pela ousadia da periguete
Pelo nosso mau basquete
Perdoai-nos, Senhor

Pela nossa incompetência,
Por toda essa incongruência
Pela falta de paciência
Perdoai-nos, Senhor

Pela burrice empedernida
Pela sociedade carcomida
Pela massa deprimida
Perdoai-nos, Senhor

Pelos vis torturadores
Por todos os dissabores
Pela perda dos valores
Perdoai-nos, Senhor


Pela autoridade astuta
Pela jovem prostituta
Pela falta de labuta
Perdoai-nos, Senhor

Pelo desejo insano
Pela busca do profano
Pelo apoio ao tirano
Perdoai-nos, Senhor

Pela nossa dívida interna
Por toda essa baderna
Pelo banqueiro passando a perna
Perdoai-nos, Senhor

Pela nossa covardia
Pela traição de Maria
Pelo balde de água fria
Perdoai-nos, Senhor

Pelo caminho torto
Pela fila do aeroporto
Pela confusão do porto
Perdoai-nos, Senhor

Pelo tomate na feira
Pelo calor na geleira
Pelo sequestro da freira
Perdoai-nos, Senhor

Pelo vasto ministério,
Pelo roubo do minério,
Pelo país que não é sério
Perdoai-nos, Senhor

Pela nudez descarada
Pela sociedade errada
Pela vida depravada
Perdoai-nos, Senhor

Por tudo o que não foi dito
Pela febre do mosquito
Pelo poema esquisito
Perdoai-nos, Senhor





sexta-feira, 17 de novembro de 2017

O PRIMEIRO IMPÉRIO ONDE O SOL NUNCA SE PUNHA (Laércio de Melo Duarte)



Ruínas da antiga muralha de Guimarães (Minho,Portugal)

Castelo de Guimarães
Rio Douro, acima da cidade do Porto

Alto Douro Vinhateiro


A história de Portugal se perde nas brumas dos tempos pré medievais, quando partes de seu território foi ocupado por vários povos antigos, entre os quais os fenícios, depois os cartagineses. Três séculos antes de Cristo a região entre os rios Douro e Minho estava ocupada pelos celtas, que nela se estabeleceram e se misturaram com os povos bárbaros nativos desde tempos imemoriais. Foi quando deu-se a invasão romana, que a ocupou por aproximadamente oito séculos, deixando impregnadas ali sua herança na cultura, nos costumes, na religião e na língua. Com o declínio do império romano, partes de Portugal foram ocupadas pelos mouros a partir do ano 800, vindos de suas colônias no sul da Espanha. Nessa época, os territórios ao norte de Portugal já estavam convertidos ao cristianismo; e seus habitantes, fugindo ao assédio muçulmano, abrigaram-se na Galícia, que então pertencia ao reinado de Leão, atual Espanha. 

Coube aos reis de Leão os combates iniciais para expulsão dos mouros. Ao longo dos anos 800 e 900, a região foi palco de inúmeras batalhas, não apenas entre árabes e cristãos, mas também entre os próprios cristãos, pela disputa do território, num entra e sai, conquistas e retiradas que marcaram profundamente o território, ora anexando-o à Galícia, ora estabelecendo protetorados autônomos, comandados pelos nobres chefes militares que estivessem na sua posse transitória. Finalmente, em 1093 foi estabelecido o Condado de Portugal, como presente do rei de Leão à sua filha Tereza de Leão pelo seu casamento com Don Henrique de Borgonha, nobre que havia se destacado na luta contra os mouros. Agora Conde, Don Henrique passou a governar de modo semi autônomo o Condado Portucalense, que ia de Coimbra até a fronteira com a Galícia. 

Morto Don Henrique, seu filho Don Afonso Henriques se revoltou com a preferência que sua então regente e mãe, Dona Tereza, dava aos nobres galegos, em detrimento dos nascidos no Condado. Armou-se como "cavaleiro de armas", abandonou o castelo e passou a dedicar sua vida na luta contra os mouros, até que, em 1139, após uma importante vitória, Don Afonso Henriques foi aclamado Rei pelas suas tropas. Nascia, então, o Reino de Portugal, com capital em Coimbra. Em 1143, o Rei de Leão reconhecia a independência de Portugal e ajudou a organizar o exército, fornecendo soldados para a continuidade do combate aos Mouros, sob o comando de Don Afonso I. 

Em 1147, as tropas portuguesas conquistam Sintra e Lisboa, empurrando os muçulmanos na direção sul, de volta aos territórios da Andaluzia, de onde haviam saído três séculos antes; e de onde seriam finalmente expulsos de volta à Africa ainda mais três longos séculos depois. 


Mural na Estação São Bento, cidade do Porto, 
celebra as vitórias de Don Afonso contra os mouros



A consolidação definitiva das fronteiras do Reino de Portugal ocorreu por volta de 1250, tendo sido o primeiro país europeu a fazê-lo. A Espanha, por exemplo, só foi unificada na ponta da espada já no século XV pelos reis católicos de Castela e Aragão, Don Fernando e Dona Isabel. Mesmo assim, ainda hoje várias províncias reivindicam autonomia em relação ao poder central. Com Portugal esta divisão nunca aconteceu, pois foi o primeiro reino europeu a consolidar suas fronteiras dentro de uma nação com língua e religião únicas.


Um evento importante na história de Portugal e da península ibérica foi a transferência da capital para Lisboa. Isso deu-se no final do século XIV, em meio aos confrontos decorrentes da morte do rei Don Fernando, cujos herdeiros seriam espanhóis da linha dos nobres de Castela, contra os quais se revoltaram os negociantes de Lisboa, então já importante entreposto comercial àquela altura do ano 1380. Os ingleses apoiaram as forças rebeldes que derrotaram os castelhanos, os quais contavam com o apoio dos franceses, sempre em posição antagônica aos ingleses. Finalmente, em 1385 um dos fidalgos vencedores do confronto militar é entronado como novo rei de Portugal, cujo primeiro ato foi transferir a capital de Coimbra para Lisboa.

Em seguida, Portugal tornou-se grande potência, que substituiria com vantagens os reinos feudais da idade média em França, Itália, Alemanha e outras regiões da Europa.  Estabeleceu-se como excelência em navegações de longa distância, a partir da escola de Sagres, referência mundial no assunto. Participou com Espanha das grandes descobertas de novos continentes, da travessia por mar para a Ásia, contornando o Cabo da Boa Esperança, extremo sul da África, desvendou a passagem para o Oceano Pacífico através do Estreito de Magalhães, ao sul da atual Argentina e Chile, etc.
Com a vida ganha e mansa, o reino de Portugal ajudava o catolicismo espanhol na luta contra os mouros, pois, afinal, naqueles tempos os califados muçulmanos na Andaluzia, especialmente Córdoba, Sevilla e Granada ainda eram muito fortes.
Logo após as grandes descobertas, foi entronizado um rei especial. Dizem que era um jovem muito culto e bonito, que teria morrido virgem. Ele não tinha ambições especiais, mas, devido ao seu status nobre, foi obrigado a assumir o comando das tropas portuguesas, e, durante uma batalha no norte da África em 1578, o rei simplesmente sumiu. Seu corpo nunca foi achado. Tornou-se lenda.
Com a morte de Don Sebastião, o reino de Portugal voltou às mãos espanholas, agora sob o controle do terrível Don Felipe II, cruel e vingativo, que simplesmente mandava matar a todos que não professassem a religiosidade católica como ele imaginava ser a mais correta. Estabeleceu um tal reinado de terror, que levou a península ibérica de volta ao terror da idade média. Em Madrid, eram famosas as execuções de bruxas nas fogueiras armadas em plena Plaza Mayor, no centro da cidade, tradição que se expandiu pelo reino até as principais cidades de Portugal, e inclusive em alguns locais do nordeste brasileiro, especialmente contra muçulmanos e pregadores do movimento reformista protestante.

Em 1640, o Duque de Bragança declarou Portugal livre do império espanhol e iniciou uma nova dinastia. Por essa época, já no Brasil, o padre português Don Antonio Vieira escreveria uma série de poemas épicos, aos quais deu o nome de QUINTO IMPÉRIO, que seria, segundo sua visão artística e messiânica, a consolidação de Portugal como a quinta raça a comandar a humanidade, após os Assírios, Persas, Gregos e Romanos. 

A religiosidade católica é fundamental na civilização portuguesa

Mosteiro dos Jerônimos (1530), situado no distrito de Belém, 
junto ao Tejo, feito para impressionar os visitantes estrangeiros.

Os descendentes dos Bragança estão até hoje consolidados como a família imperial brasileira. Muitos nobres dessa linhagem ainda vivem das propriedades imperiais estabelecidas na antiga capital, Rio de Janeiro, e na cidade de Petrópolis, onde a Corte passava os verões.
O último episódio sebastianista brasileiro foi a Revolta de Canudos, onde Antonio Conselheiro amaldiçoava a recém proclamada república e dizia esperar a reencarnação de Don Sebastião, com a magnífica profecia de que "o sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão". Enquanto a profecia não se cumpre, o sebastianismo vai fazendo sua vingança: parte da população de Canudos que não pereceu sob as baionetas republicanas, foi levada prisioneira para o Rio de Janeiro. Ali, depois de "liberados", sem terem para onde ir, foram todos morar num morro no centro da cidade, a que os moradores deram o nome de Morro da Favela, em referência a um aglomerado então existente em Canudos, que tinha esse mesmo nome. Era apenas o começo da enorme vingança histórica, atávica e implacável.

Magnífica!  Como a história portuguesa.

Rua Augusta e o Portal que liga o centro ao Porto de Lisboa

Centro de Lisboa, com Castelo de São Jorge no alto da Alfama


(fotos e vídeo feito pelo autor)

terça-feira, 14 de novembro de 2017

UM TRATOR CHAMADO SAUDADE (Mara Lúcia Bedin)



Autora: Mara Lúcia Bedin



O latido dos cães, lá longe, anunciava a chegada de estranhos à casa. O dia estava claro. O vento fresco arrepiava a minha pele,  embaraçava e me desalinhava os cabelos longos, atrapalhando minha visão. O sol morno me aquecia e me libertava do frio da manhã. Olhava em volta, à frente, uma plantação de milho com as espigas já gordinhas e cabeludas, muitas delas... À direita, espalhadas desordenadamente, para contrapor com a organização militar da plantação ao lado, havia muitas flores do campo coloridas; margaridas, gérbera, ervilha de cheiro, flor de cenoura. Girassóis e copos de leite ao longo das margens do riacho, que escorregava silencioso. As abelhas e os colibris dançavam velozes sobre as flores, inventando passos estratégicos para chegar ao desejado néctar.

Lembro; havia mais à frente uma floresta de araucárias, linda, que desapareceu depois. Nunca mais cheguei a ver uma assim tão majestosa, e a bem da verdade, nunca mais vi nem mesmo outra qualquer floresta de araucárias por aquelas paragens. Felizmente, vi há pouco tempo em Urubici uma floresta de araucárias se reconstituindo em meio à Mata Atlântica, mas não com a formosura daquela primeva visão infanta. 

Lá na minha mata, bandos de papagaios e ararainhas azuis faziam desenho no céu de anil, enquanto brincavam de pega-pega, em grande algazarra, distribuindo suas cores verdes e azuis. Podíamos ouvir o som do Pica Pau trabalhando e o canto do Zecapassarinho amarelinho; como ele era bonitinho! Era uma grande orquestra da natureza.  Imagens que ficaram esquecidas na minha memória e que hoje, ao me lembrar do som do motor deste trator, despertou-me do fundo atávico da minha vida.

Era férias de verão, e eu adorava sair com o meu pai para o interior de Chapecó. Ele ia fazer demonstração de um trator pequenino, de fabricação japonesa, uma novidade que atendia por um nome estranho: Tobata.

-  “Esses japoneses precisam fazer tudo bem pequeno, porque na terra deles, tudo é pequeno. Imagine que eles moram num pequeno arquipélago rochoso, e mesmo assim se tornaram uma potência depois da guerra. Aprenderam tirar leite de pedras! Eles estão até produzindo relógios sem corda, mas para mim", dizia meu pai, "os melhores relógios serão sempre os feitos na Suíça, da marca Oméga.”  

Ele tinha um magnífico exemplar e gostava muito deste relógio, a caixa de prata, redondo, preso a uma corrente, que ele guardava no bolso da calça; a outra extremidade da corrente estava fixada na presilha do cinto. Quando ele se foi para a outra dimensão da eternidade, eu guardei comigo o relógio e as abotoaduras de prata. As abotoaduras eu ainda as tenho, mas cadê o relógio? O relógio tão importante, eu perdi... Não sei onde foi parar... Nunca mais o encontrei...

As marcas do tempo não apagaram
a lembrança boa que trago de meu pai.  
 


Eu adorava correr pela terra vermelha da minha infância, enquanto meu pai apresentava e fazia demonstrações com o Tobata; e adorava mais ainda quando ele me convidava para subir no trator.  Imagine a minha alegria! Eu sentada e ele manobrando. Tudo era bom, aquela atmosfera saudável do campo; e papai só para mim, os meus outros quatro irmãos concorrentes estavam longe, em casa, na escola, sei lá... Só sei que o pai era só meu, naquele momento! E me via nitidamente ali, presente,  ajudando ele a vender o trator aos seus clientes produtores rurais. Nas minhas férias de verão, durante a escola básica, muitas vezes acompanhei meu pai em suas pequenas viagens aos arredores de Chapecó, contribuindo para "aumentar a renda familiar."

Que incrível máquina é mesmo o nosso cérebro, as nossas memórias, essas de longo tempo, principalmente... Quando relembro, sinto-me lá. Tento me reinventar e me redescubro como o louco que retorna à caverna de Platão trazendo a vivência tão rica do que existe lá fora. Na minha caverna,  não me interesso pelas sombras; ali a luz do sol entra livre e sem barreiras, deixando meus olhos alcançarem a magnífica beleza das pedras rubis vermelhas, a areia fina dourada, e a única arca que existe aqui está entreaberta, deixando ver as pérolas e madrepérolas. 

Rajadas de ar fresco por aqui circulam, prenunciando mudanças, as quais eu posso sentir no meu corpo. Percebi que na dança da vida, consciente ou não, sigo tentando reproduzir os gestos e exemplos de meu pai. Busco a minha essência e a percebo contida dentro das lembranças dele, que ainda guardo comigo com carinho tão grande, que chego a perceber nitidamente meu coração vibrar e o amor pulsar. E assim eu reverencio a imensa grandeza de meu pai; e agradeço a vida que ele me deu.


PASSARÁS, PASSARÁS (Hélio Cervelin)

AUTOR: HÉLIO CERVELIN


Era um dia propício para uma estreia: claro, sol brilhante, brisa fresca sacudindo as ramagens verdes. Cláudio está tenso, ansioso. Afinal aquele dia era para ele muito especial. Há muito tempo ansiava por este momento.
Quantas meninas ele já vira passar sem poderem dispor daquilo que hoje estava ali, rija, ereta, suspensa no ar à espera de quem viesse? Perdera a conta.
Olhou para Marta, linda, vestindo um jeans azul listado e uma blusa de renda em tom azul claro, sobre seu corpo esguio. Fitou-a com carinho. Hoje seria um dia importante para os dois, mas principalmente para ele, mais afoito, mais inquieto.
Beijou-lhe os lábios quentes e macios, afagando-lhe os cabelos longos e cacheados.
- Será que serei o primeiro a passar por aqui? Perguntou.
- Não sei, pode ser – disse ela sem transparecer muita emoção.
- Você acha bobagem eu querer ser o primeiro? Retornou ele.
- Não, absolutamente – retrucou ela, resoluta. Afinal você já foi o primeiro tantas vezes em tantas outras coisas... Eu considero importante a pessoa querer estar na frente, chegar antes. Quando um atleta disputa uma competição o que é que ele deseja? O primeiro lugar, naturalmente.
- É, mas... Isto aqui tem para mim, além de tudo, um sentido romântico, afirmou Cláudio.

Olhou para o riacho de águas turvas que mal refletiam os raios do sol e suspirou.

- Bobinho! Disse ela. Você parece uma criança diante do primeiro brinquedo.
- Pudera! Depois de tanta espera... Afinal, esta batalha começou em 1982, quando nos conhecemos. Vamos de uma vez, que eu não aguento mais!
- Nossa! Querido, quanta excitação!
Ele levantou-se de um salto, quase a arrastando pela mão. E correram felizes em direção à passarela da Avenida Madre Benvenuta, sobre a Avenida Beira-mar. Afinal, sua construção fora prometida ainda em 1982, na campanha eleitoral, e Cláudio queria ser o primeiro a passar por ela no momento de sua inauguração.

A LINGUAGEM HUMANA (Hélio Cervelin)

AUTOR: HÉLIO CERVELIN



O homem tem uma necessidade crescente de se comunicar, uma vez que, no mundo moderno, as informações são cada vez mais velozes e sofisticadas, e novas necessidades são criadas a cada dia e de forma ilimitada.
Diante dessa necessidade, surgida nos primórdios da civilização, o homem desenvolveu algumas maneiras de se comunicar: gestos, sinais vocais, desenhos, músicas, danças, pinturas e símbolos.
Sem uma linguagem seria impossível ao homem divulgar suas ideias, pesquisas, crenças e valores, e os conhecimentos acumulados não passariam às gerações posteriores, a ponto de  podermos  afirmar que o desenvolvimento da humanidade depende de uma efetiva comunicação.
O processo de comunicação é a troca de informações entre um emissor e um receptor, com a utilização de um código entendido tanto por um quanto pelo outro. Assim, quando o indivíduo se utiliza da linguagem oral ou escrita está recorrendo à linguagem verbal, pois o código utilizado é a palavra. A linguagem não verbal, por sua vez, não se utiliza da palavra para transmitir algo, a exemplo de um semáforo, que ordena o trânsito apenas através do acender e do apagar das luzes, adotando as cores determinadas por uma legislação específica, sendo o verde, o vermelho e o amarelo, representando, respectivamente "siga", "pare" e "atenção".
Conforme a situação, a linguagem pode variar, assumindo funções que levam em consideração o que se quer transmitir, quais efeitos se espera obter e o modo de consegui-los. Assim, a linguagem formal é o modelo culto, utilizado na escrita, e segue rigidamente as regras gramaticais. Consiste em uma linguagem mais elaborada, cuja exatidão e beleza são  supervalorizadas nos meios acadêmicos e literários, sendo considerada indispensável nos documentos oficiais.
A linguagem coloquial, por seu turno, é a versão oral da linguagem culta, e por ser mais livre e espontânea tem maior liberdade de criação da fala, estando menos presa às regras gramaticais. Desta forma, muitos linguistas defendem que na comunicação verbal não há o que se falar em "erro", pois, segundo seu ponto de vista, se um falante se fez entender, já terá sido válida a comunicação. Neste aspecto as diversas gírias são consideradas válidas, pois simplificam a comunição através das construções metafóricas, e muitas vezes cômicas, utilizadas em abundância.
De qualquer forma, a comunicação é a mais bela das manifestações humanas, especialmente quando representada por um quadro maravilhoso de um pintor inspirado, uma peça teatral em forma de uma graciosa e precisa dança ou, ainda, numa romântica e emocionada declaração de amor de um casal apaixonado.

PROCURO ALGUMA COISA (Querubina Ribas)



Querubina Ribas, a autora, faz parte do 
Coletivo Náufragos Literários.

Procuro alguma coisa que não encontro. Tenho uma vaga lembrança da minha mãe, com um velho avental vermelho de crochê, cozinhando numa panela de ferro o nosso almoço. Busco na memória esmaecida, pelo tempo e idade, a figura amada. Vejo-a, sempre, na cozinha de nossa casa. Naquela grande e aconchegante cozinha, onde fazíamos todas as refeições, recebíamos amigos, brincávamos, e, à noite, ouvíamos causos de fantasmas, de tesouros escondidos em panelas, de bolas de fogo que perseguiam os bêbados retardatários.

Nas noites frias de inverno, ficávamos em volta do fogão a lenha. Meu lugar favorito era o caixão de lenha, coberto com grosso e macio pelego branco. Em cima do fogão, minha mãe amarrou, da parede até o chaminé, um barbante onde ela pendurava as cascas de laranjas, para secarem. Gostava de sentir aquele cheiro adocicado de laranjas, misturado com o cheiro de fumaça. Na minha memória, sempre que penso na mãe, vem uma figura envolta em deliciosos aromas de comida, de biscoitos de casca de laranjas, de fumaça.

Às vezes, me dá uma saudade gigantesca desse tempo tão curto e mágico que foi minha infância. E quando vislumbro a suave imagem de minha mãe, nessa época, lágrimas rolam silenciosas pelo meu rosto. Sinto-a ao meu lado. As lembranças são tão reais que apagam o momento vivido. Adquiri, dolorosamente, com o passar dos anos o conhecimento de que a vida bem ou mal vivida pode ser enriquecida com fragmentos de nossas lembranças.

Embora, o que vivenciamos de forma tão real e fantástica, através da memória, não volte mais.

MARROCOS (Querubina Ribas)

MARROCOS


Querubina Ribas, a autora, faz parte do 
Coletivo Náufragos Literários


O caminho, longo e estreito, parecia não ter fim. Desaparecia numa curva. Surgia em outra. De um lado, um rio cristalino, abastecido com as águas do desgelo da cordilheira do Átlas. Do outro lado, altas paredes marrons. Muito altas. Entre elas dava para vislumbrar uma nesga do céu azul. O silêncio era total. Na mitologia da Grécia antiga, Hércules andou por estas paragens. Procurou o auxílio do desterrado Átlas, para realizar o último dos seus doze trabalhos. Numa pequena tenda, um bérbere vendia artesanato em tecido, uma tradição milenar desse povo bonito e sábio. Autodenominam-se “imazighen” que significa, homens livres. 

Fixei meus olhos, nos negros olhos do bérbere.
Esbocei um tímido sorriso. Amo as pessoas diferentes. As culturas diferentes. E, ao visitar um país, sempre fico com receio de transgredir alguma regra da cultura do país que visito. Detive-me por alguns segundos, sem saber se me aproximava. Caminhei lentamente, para outro lado. Parei, por um tempo impreciso, para sentir a força daquele lugar tão tranquilo e que exerceu um forte poder sobre mim. A sensação de isolamento, me deixou com uma vontade enorme de nunca mais sair daquele lugar. Aquela natureza, exótica, perfeita, deslumbrante fez com que eu me sentisse em casa, segura e harmoniosamente ligada àquela paisagem.

Não sei o porquê, associei aquele caminho, aquele rio tortuoso e ao mesmo tempo calmo e tranquilo, com a vida do ser humano. De um lado, altas, escuras e difíceis escarpas. Do outro, um manso e cristalino rio. A vida é assim. Paredes altas que dificultam nossa subida, em determinadas circunstâncias. Barreiras difíceis de superar. E, momentos que se assemelham a um rio manso, de águas cristalinas que nos levam suavemente por terras desconhecidas. Que nos impulsionam. Que nos fazem sair dos limites que nos amarram. Nos detêm. E, ao longe, naquele serpenteante caminho, havia um oásis.